Filmes com temática LGBT podem despertar polêmicas, receber prêmios e fazer sucesso. “Filadélfia” e “Priscila – a Rainha do Deserto” são exemplos disso.  Entretanto, muitos deles acabam resvalando em estereótipos e resultando ou em comédias caricaturais, não necessariamente engraçadas, ou em dramas e romances superficiais, que encontram público mais pelo fato desse querer se ver representado nas películas do que pelas qualidades propriamente ditas. Porém, de vez em quando, surge aquela produção que pretende ser mais do que um filme “subtemático” (cinema gay não é exatamente um gênero). São filmes que se aprofundam mais nos dramas dos seus personagens, buscando mostrar a relevância que eles tiveram em determinados contextos sociais ou que simplesmente buscam retratá-los como pessoas que choram, que riem, que possuem defeitos e qualidades. Que podem ser vítimas, ou algozes. Ou seja, que os (nos) retrata como seres humanos.

Listas nunca são completas ou definitivas, mas são muito difíceis de compor, pois o medo de ter praticado alguma injustiça é grande. A lista de filmes LGBT a seguir procurou mesclar aquelas produções mais famosas com outras não tanto assim, mas que refletem o momento em que foram produzidas e que precisam ser descobertas.

11 – TRANSAMÉRICA (Transamerica, EUA, 2005)

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Em “Transamerica”, a “desperate housewife” Felicity Huffman interpreta Bree, uma transexual que, prestes a realizar a sua sonhada cirurgia de mudança de sexo, descobre ser o pai de Toby, um adolescente viciado em drogas que agora se encontra preso. Para ter a sua cirurgia devidamente autorizada, Bree deve viajar até Nova York para tirar o filho da cadeia. Temendo a reação de Toby, Bree não lhe conta a verdade. Tendo que viajar juntos, revelações acabam surgindo, mudando para sempre as suas vidas. “Transamerica” segue à risca a cartilha dos típicos road movies, mas o faz com muita sensibilidade, e um humor delicado, ao mergulhar fundo na alma daqueles que os EUA (e o Brasil também, claro) costumam marginalizar. O filme de Duncan Tucker (que nunca mais dirigiu nada) é uma espécie de voz do excluído. Uma voz cujos ecos nos tocam profundamente.

10 – AZUL É A COR MAIS QUENTE (La Vie d’Adele, FRA, 2013)

Filme sensação de 2013, o francês “Azul é a Cor Mais Quente” chegou cercado de polêmicas: os mais conservadores se incomodaram com a quantidade de cenas eróticas envolvendo as duas protagonistas, enquanto rumores de abuso psicológico e físico envolvendo o diretor e as atrizes Adele Exarchopoulos e Léa Seydoux ganhavam forma. Imbróglios à parte, e à despeito de algumas ressalvas em relação ao ritmo do filme e de certa “fetichização” das cenas e sexo, a história envolvendo o despertar da sexualidade da jovem estudante Adele envolve e cativa. Excelentes atuações.

9 – MILK (Idem, EUA, 2008)

Harvey Milk foi o primeiro homem assumidamente homossexual a ocupar um cargo público nos EUA, ainda nos anos 70. A cinebiografia dirigida por Gus Van Sant (Elephant) acerta em cheio ao usar a figura de Milk como vetor para o estudo comportamental de uma época, além de mostrar o poder de mobilização de diversos estratos sociais.  O roteiro de Dustin Lance Black (gay assumido e que venceu o Oscar 2009 na categoria) é sólido e conta com um Sean Penn (também vencedor do Oscar) realmente entregue ao papel título do filme.

8 – PRIDE (Idem, ENG, 2014)

Pride é uma produção inglesa que passou despercebido por essas terras, sabe-se lá porque. Trata-se de um filme excepcional que narra a história real da peculiar aliança entre um grupo de ativistas gays de Londres e mineiros grevistas do interior do país, à época do governo de Margareth Tatcher. Mais do que jogar luz sobre um microcosmo histórico, Pride mostra com precisão cirúrgica a força que movimentos sociais podem ter quando unidos. Aliada à narrativa política, temos personagens riquíssimos e interessantes vivendo os seus dramas mais íntimos, personificados por gigantes do cinema inglês e por jovens talentosos.

7 – DIREITO DE AMAR (A Single Man, ENG, 2009)

Direito de amar provocou frisson à época de seu lançamento, em 2009. Isso porque o seu diretor é Tom Ford, um famoso estilista norte-americano. Muitos dos elogios tecidos (rá!) ao filme, se devem ao seu deslumbrante apuro visual e cênico impresso. Entretanto, o filme de Ford é mais do que uma bela fotografia: é um estudo sobre a dor da perda, e de como ela pode se abater sobre cada um. É sobre o recomeçar, ou não. É talvez o mais melancólico dos filmes da lista, mas é certamente um dos mais pungentes. Difícil não se deixar envolver pelos superlativos trabalhos de Colin Firth e Julianne Moore como protagonistas.

6 – HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO (Idem, BRA, 2014)

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Quem nunca teve aquela paixão inesquecível e arrebatadora na época da escola, hein? “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” do diretor e roteirista Daniel Ribeiro conta de forma sensível uma dessas histórias embalada por uma trilha sonora fofa (tem até Belle and Sebastian) e um bom elenco. As decisões finais do roteiro acabam não fugindo muito do lugar-comum, mas esse é um problema menor que em nada prejudica o resultado. Uma pequena obra prima.

5 – MENINOS NÃO CHORAM (Boys Don’t Cry, EUA, 1999)

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O filme que revelou ao mundo e deu um Oscar de melhor atriz para Hillary Swank (que já tinha participado de um engodo chamado Karatê Kid 4) é um soco no estômago. A diretora Kimberly Pierce (que cometeu o remake de Carrie – A Estranha recentemente) cria uma narrativa crua e impactante, para nos contar a história de uma mulher chamada Teena Brandon (Swank) que passa a se apresentar como homem, agora Brandon Teena, e se relaciona com a jovem Lana.  Ao subir dos créditos, o nó na garganta é quase indissolúvel. Um filme necessário.

4 – DOMINGO MALDITO (Sunday Bloody Sunday, ENG, 1971)

O ano de 1971 foi emblemático para o cinema. Refletindo o pessimismo que marcaria a década nas futuras produções cinematográficas, Laranja Mecânica e Sob o Domínio do Medo marcaram época. Um filme menos famoso, mas igualmente excelente é “Domingo Sangrento”. Dirigido por John Schlesinger e traz um triângulo amoroso cujos integrantes são um médico, uma mulher divorciada e um jovem rapaz. Como é de se esperar de uma produção britânica, temos excelentes atuações. Delicado e melancólico, esse clássico esquecido merece ser descoberto.

3 – TODA FORMA DE AMOR (Beginners, EUA, 2010)

Oliver (Ewan McGregor) é um publicitário introspectivo que coleciona relacionamentos efêmeros e que agora precisa lidar com a morte do pai (Christopher Plummer, vencedor do Oscar). Ao iniciar um novo relacionamento, com a personagem de Melanie Laurent (a eterna Soshanna de Bastardos Inglórios), Oliver passa a reconsiderar sua vida afetiva, ao passo em que rememora os últimos 4 anos de vida de seu pai, quando este se assumiu gay, no alto dos seus 75 anos de idade. Ok, o filme não tem como foco principal a história de libertação sexual do pai de Oliver, mas ela é essencial na evolução emotiva e dramática do personagem vivido por McGregor. Além do mais, a subtrama envolvendo o personagem de Plummer é contada de forma sensível e comovente, imprimindo um algo a mais no que poderia ser apenas mais uma “dramédia”. Sem falar que todo filme traduz os pensamentos de um Jack Russell Terrier em legendas merece ser visto.

2 – ALMAS GÊMEAS (Heavenly Creatures, NZE, 1994)

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O neozelandês Peter Jackson é famoso hoje por ter dirigido as trilogias “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit”, mas pouca gente sabe que os seus trabalhos tiveram os dois pés no cinema trash. Entretanto, “Almas Gêmeas” é uma ruptura entre essas duas fases. Produzido em 1994, ele ficciona eventos reais que chocaram a Nova Zelândia nos anos 50: duas adolescentes viram amigas e começam a desenvolver uma relação de intimidade que acaba despertando desconfiança por parte dos pais das moças. Para fugir de suas realidades opressoras, elas acabam criando um mundo próprio, onde fantasia se confunde com a realidade e a amizade cede lugar à obsessão e a tragédia. A mise em scene de Jackson é impressionante e faz de Almas Gêmeas um filme imperdível e aterrador. Ver Kate Winslet em início de carreira brilhar da forma que brilha aqui é particularmente gratificante. Uma obra-prima.

1 – INFÂMIA (The Children’s Hour, EUA, 1961)

Duas professoras de uma escola para meninas situada no interior dos EUA (vividas por Audrey Hepburn e Shirley McLaine) veem suas vidas se transformarem num inferno quando uma das alunas as acusam de serem lésbicas. Baseado numa peça de Lillian Hellman, “Infâmia” é um filme curioso. A partir dessa sinopse, o trabalho de William Wyler (mais conhecido por Ben-Hur e O Colecionador) cria um poderoso estudo sobre a intolerância, além de discutir as consequências devastadoras que boatos podem ter sobre a vida das pessoas. Isso… em 1961. Daí a importância e a coragem do filme. Imperdível e importante.


Raphael Travassos é historiador por formação e cinéfilo de coração. Aprendeu a amar a sétima arte ainda criança, ao conhecer as obras de Alfred Hitchcock, num festival exibido na TV aberta. Hoje,preenche o seu tempo vendo filmes e escrevendo sobre eles.

 

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