Elas são debochadas, loucas e determinadas. Já foram odiadas pelo público ancestral de novelas, mas desde a segunda metade da década de 70 elas passaram a ganhar cada vez mais a simpatia do público, a ponto de polarizar a torcida da audiência, quando o natural do folhetim maniqueísta seria os telespectadores torcerem em sua totalidade pela mocinha.

As vilãs das novelas brasileiras evoluíram e ajudaram as tramas a evoluírem também, trazendo contornos dúbios e mais ricos para esse gênero que está inserido no país há mais de 60 anos. Elas têm comparsas que vão desde um amante sarado até a própria pombajira; armas que vão de escadas mortais a carros em movimento. Mas, uma certeza nós temos: sem elas, as novelas perderiam todo o seu charme.

Reuni minha experiência de 23 anos acompanhando exibições, reprises e re-reprises de telenovelas tupiniquins e reuni as maiores composições do gênero numa escala de peçonha: da falsiane coral até a mais venenosa de todas. Vem comigo!

10 – NICE – ANJO MAU – GLOBO, 1976/199710a-horz

MAIOR MALDADE: SEPAROU A INIMIGA DO AMADO PRA SER CASAR E SER RICA

CASTIGO: MORRER NO PARTO DE SEU PRIMEIRO FILHO/NÃO TEVE

Começo essa lista com Nice, uma das primeiras mocinhas com contornos de vilã da história da tevê, numa época em que havia muito mais maniqueísmo que dubiedade nas telenovelas brasileiras. Ainda que armasse contra alguns dos personagens do elenco e mantivesse uma treta desgraçada com a família, Nice era querida e recebia a torcida do público para que ela fisgasse o coração do ricaço Rodrigo, noivo de outra mulher, e atingisse seu objetivo de ser rica feat. bem casada. A babá “do mal” foi a primeira grande personagem de Suzana Vieira na televisão, em 1976. A ousadia de Nice, no entanto, não foi bem recebida pela censura federal, que considerou a carreirista inadequada para o horário das sete da noite. Nice se manteve fiel aos seus objetivos, mas por imposição dos militares, ela teve que ser morta no último capítulo, como forma de exemplo para aqueles que “queriam atingir o inatingível”. Em resumo, os milicos acharam que Nice tinha pussy power demais e deveria pagar pela subversão. Quando Anjo Mau ganhou um remake, anos depois, Nice sobreviveu ao parto difícil e finalmente pode ser feliz ao lado de Rodrigo. Nesta segunda versão, de 1997, Glória Pires deu vida à babá, que teve seus contornos dúbios mais intensificados, enriquecendo o personagem com conflitos, mas mantendo empatia com o público.

9 – CARMEM – CARMEM – MANCHETE, 19879

MAIOR MALDADE: VENDEU A ALMA PARA A POMBAJIRA PARA CONSEGUIR O BOFE AMADO

CASTIGO: MORRE ASSASSINADA PELO BOFE QUE A DESPREZOU

Carmem era uma trevosa suave. Inspirada na personagem homônima da ópera de Bizet, ela ganhou contornos brasileiros graças ao tratamento da nossa querida e tresloucada Glória Perez. Cansada de ser preterida pelo homem que amava, Carmem fecha um pacto com a pombajira – uma interpretação marcante da atriz Neusa Borges – prometendo sua alma em troca de pussy power. Consegue conquistar o dito cujo, mas alimenta o ciúme de outro homem apaixonado que, enlouquecido, assassina Carmem no fim na novela.

8 – IRIS – LAÇOS DE FAMÍLIA – GLOBO, 20008

MAIOR MALDADE: ROGOU UMA PRAGA TÃO FUDEROSA PRA PRIMA QUE ELA ACABOU FUNCIONANDO

CASTIGO: NÃO TEVE

Iris fez justiça por muitos de nós quando cavalgava pelos pampas de Laços de Família jogando pedras nos telhados de vidros dos personagens da novela ao som de “Próprias Mentiras”, de Deborah Blando. Ao longo da trama, a personagem, meia irmã da protagonista Helena, perde os pais e despiroca geral, pendendo seus comentários e atitudes para a vilania. Seu alvo principal era a “sobrinha” Camila, acusada pela futura Bruna Surfistinha de ter roubado o noivo da mãe. Não deixa de ser verdade, mas a Iris exagerou na dose ao rogar uma praga disgramada contra a inimiga: “você não vai ter esse filho”, disse para Camila, grávida de Edu, o ex-namorado bonitão de Helena. Capítulos depois, Camila passa mal, perde realmente o bebê e ainda descobre nesse ensejo que sofre de leucemia. Iris cai na real e termina com o homem que sempre amou, o peão Pedro, ex- da irmã e pai de Camila e passa a ser madrasta e tia de sua maior inimiga. Não é à toa que a novela se chamava Laços de Família.

7 – SHEILA – HISTÓRIA DE AMOR – GLOBO, 19957

MAIOR MALDADE: PERSEGUIU A INIMIGA GRÁVIDA POR UM ESTACIONAMENTO E PROVOCOU UM ACIDENTE QUE FEZ A AMAPÔ PERDER O BEBÊ QUE ESPERAVA

CASTIGO: NÃO TEVE

Sheila é, de longe, minha vilã predileta. Apesar de ser cruel e debochada, ela tinha também um perfil apaixonante. Ela havia sido uma das muitas mulheres de Carlos, o médico pegador desta trama das seis. Mesmo anos depois do fim do relacionamento, Sheila ainda mantinha um amor de pica pelo dotô, que acaba se casando com Paula, outra vilã da trama. As duas passam a trocar farpas e conforme os contornos psicológicos de Sheila vão ficando mais sombrios, a disputa passa a ser mais violenta. A treta aumenta quando Carlos se apaixona por Helena e deixa as duas a ver navios. Paula arma contra Helena e Sheila arma contra as duas, mas o inesperado acontece: o jeito cativante e batalhador de Helena acaba desarmando Sheila, que deixa de perseguir a protagonista da história e concentra seus esforços em Paula, que é inserida numa espécie de Jogos Mortais tupiniquim durante a reta final da novela. Numa das cenas mais marcantes, de posse de um carro, Sheila persegue Paula, grávida de Carlos, num estacionamento. Ao fugir da lôca da buceta, Paula é atropelada por outro motorista e perde o filho. A versão bonita do Jigsaw não termina com o homem que ama, mas deixa o caminho livre para que ele e Helena possam viver sua história de amor.

6 – BRANCA LETÍCIA DE BARROS MOTA – POR AMOR – GLOBO, 19976

MAIOR MALDADE: PLANTOU DROGAS NA BOLSA DO BOFE DA FILHA PARA MANDÁ-LO PARA A PRISÃO

CASTIGO: FICAR SOZINHA

Branca foi a composição mais inesquecível de Suzana Vieira na TV. Típica personagem de Manoel Carlos, ela amava com paixão quase edipiana o filho Marcelo, fruto de uma relação extraconjugal com Atílio, atual marido de sua maior inimiga, Helena, que por sua vez vinha a ser mãe da noiva de seu filho Marcelo. Captou a treta? Como se não bastasse sua dedicação exagerada direcionada a apenas um filho, Branca ainda humilha e arma contra seus outros dois rebentos: Léo, saco de pancadas preferido da cobra coral em questão, só não foi mais prejudicado que Milena, a filha modernosa que decide namorar um piloto de helicóptero gato, mas pobre, o Nando. O casal sofria com o preconceito da loura má, que chega ao cúmulo de plantar drogas na bolsa de Nando pra fazer o rapaz cabeludo ir para a cadeia. Branca só não era pior que outra inimiga cultivada por ela ao longo de Por Amor: Isabel, personagem de Cássia Kis Magro. Uma das cenas mais icônicas da novela é o momento em que as duas brigam rolando escada abaixo, após trocarem acusações e tesouradas. Corre a boca pequena que a briga ultrapassou as barreiras da ficção e que os egos de Suzana e Cássia geraram alguns conflitos nos bastidores da vida real – nada confirmado até hoje.

5 – MARIA REGINA – SUAVE VENENO – GLOBO, 19995

MAIOR MALDADE: ROUBOU A EMPRESA DO PAI E TOMOU SEU POSTO

CASTIGO: ENCURRALADA PELA POLÍCIA, SE SUICIDOU AO PULAR DE UM PENHASCO, JUNTO DO AMANTE

Maria Regina tinha nojo de tudo. Humilhava os funcionários, o marido, as irmãs, a mãe, o pai, Deus e o mundo. Só tinha um ponto fraco: o amante Adelmo. Promoveu várias sessões de tortura psicológica contra a empregada Lucilene, que próximo do final da trama descontou tudo com juros e correção, confessando até que fez despacho pra tombar a patroa – numa das cenas mais engraçadas da novela. Comete alguns crimes durante a história, é perseguida pela polícia e morre se jogando com carro e tudo penhasco abaixo.

4 – LAURINHA FIGUEROA – RAINHA DA SUCATA – GLOBO, 1990

MAIOR MALDADE: SE SUICIDOU PARA ACUSAR A INIMIGA DE ASSASSINATO

CASTIGO: MORREU TENTANDO SE VINGAR DA INIMIGA

Laurinha também era daquelas ricas enjoadas. Era casada com o Betinho, mas mantinha uma paixão secreta por Edu, seu enteado. No passado, Edu humilhou Maria do Carmo, uma colega de escola que era pobretona e se tornou poderosa. Maria faz a bilionária e compra Edu como seu marido. Como combo, acaba ganhando Laurinha como inimiga, que faz de tudo pra tombar a mulher que roubou seu amor platônico. Laurinha arma um dos planos mais ousados da história das novelas para incriminar sua rival: se suicida simulando um crime para acusar a outra de assassinato. Para isso, chama Do Carmo, a Rainha da Sucata, para o alto de seu edifício, arranca o brinco de sua orelha da ladra de enteados, e despenca de 30 andares ao som de Cabaret, trilha sonora do filme homônimo. Ironicamente, a apresentação de Cabaret era encenada, há poucos metros da cena do suicídio, por sua filha, Adriana, interpretada por Claudia Raia.

3 – VIOLANTE – XICA DA SILVA – MANCHETE, 19963

MAIOR MALDADE: CONDENOU A ASSASSINA DO PAI A VIVER SENDO VIOLENTADA POR UM ESCRAVO

CASTIGO: SER ABANDONADA PELO BOFE QUE AMAVA

Cruel, invejosa, racista, intolerante, fundamentalista. Violante, praticamente uma comentarista de portal de notícia, foi uma personagem de Drica Moraes em Xica da Silva. Esta vilã foi o grande destaque desta produção de sucesso da extinta TV Manchete. No começo da trama, seu noivo é enforcado pelas autoridades locais ao ser pego contrabandeando diamantes das Minas Gerais. Pra completar, o safado ainda tinha uma amante. Corna e desiludida, Violante passa a usar luto todo o tempo e a perseguir um novo pretendente: o contratador João Fernandes. Este, por sua vez, é conquistado por Xica, a escrava mais linda e truqueira da cidade. Vivi sobe nos tamancos e passa a infernizar Xica durante toda a novela, convocando até a santa inquisição para jogar a inimiga na fogueira. Casa-se com João Fernandes, ao chantageá-lo, mas, adepta dos costumes machistas da época, acaba sendo subjugada pelo marido, que se mantem amante de Xica. Durante a novela descobre que o irmão e a madrasta tinham um caso e que assassinaram o pai dela para ficarem juntos. Ao descobrir a treta, Violante põe a amante do brodinho trancafiada numa senzala, sendo sodomizada diariamente por um escravo bem dotado: vôti!

2 – LÚCIA GOUVÊIA – CORPO A CORPO – GLOBO, 19852

MAIOR MALDADE: PERSEGUIR A NOVELA INTEIRA, POR RACISMO, UMA MULHER QUE NUNCA LHE FEZ NADA

CASTIGO: MORREU NUM INCÊNDIO, AO LADO DO EX-MARIDO

Pouco lembrada, Lúcia, criação de Joana Fomm, merece estar aqui por ter sido uma das primeiras vilãs que motivaram discussões sociais em telenovelas. Interesseira, ela pretendia casar a filha com um ricaço, mas seus planos vão por água abaixo quando o bonito troca a filha sem graça por uma mulher linda e bem sucedida. Calha desta super-woman ser negra. A partir daí a moça escolhida passa a ser alvo constante do racismo pesado de Lúcia durante toda a novela. No fim, a malvada morre carbonizada num incêndio junto com o ex-marido mal caráter.

1 – FERNANDA – SELVA DE PEDRA – GLOBO, 1972/1986      UM

MAIOR MALDADE: MANTER EM CÁRCERE PRIVADO A INIMIGA PARA MANTÊ-LA LONGE DO BOFE

CASTIGO: FICOU LOUCA DA BUCETA

No meio de uma selva de pedra, Fernanda só poderia ser uma louca… de pedra. Não é tão lembrada hoje pelo público mais jovem, mas foi uma das primeiras vilãs a pisar no acelerador de bafons em novelas. A bonita se apaixonou por Cristiano Vilhena, carreirista interesseiro, ex de Simone sua inimiga-mor. Ela surta quando, no dia de seu casamento, Cristiano foge do altar, por remorso, imaginando que Simone, dada como morta, partiu magoada com ele. Simone na verdade estava viva e como vingança, Fernanda rapta a moça e a tortura por dias, até ser descoberta e internada louca num manicômio. No original, Fernanda foi incorporada por Dina Sfat. No remake de 1986, a vilã da vez foi Christiane Torloni.

BG ESMEJOANO

Colaboração: Fábio Costa

Related Posts

Comentários

Comentário