As tatuagens têm origem nas civilizações do passado, e em diversas culturas de distintas complexidades. Ela mobiliza olhares, reflete sentimentos, e é uma verdadeira linguagem individual, que por sua vez, quando vemos pelo macro, constatamos uma complexa rede de identidades aglutinadas de tal forma a compreenderem um grupo.

No Ocidente, foi ressignificada à marginalidade, estigmatizada por presidiários, motoqueiros e marinheiros sem nenhuma patente que desenhavam, por vezes de forma canhestra, imagens, palavras ou frases em seus corpos.

Sua popularização sem a caracterização negativa começou a ser construída no final dos anos 90 e início dos anos 2000, junto com toda a revolução da autonomia do corpo, e as revoluções do campo das tecnologias.

Mais conhecimento leva a menos preconceito, essa é a lógica sempre. O que não se pode dizer que o estigma com as pessoas tatuadas tenha se extinguido, contudo ele está passando pela fase de desconstrução.

Para as mulheres foram negadas o direito ao próprio corpo por muitos anos. Nesse contexto entende-se o predomínio da discriminação com mulheres tatuadas, por vezes lidas como promiscuidade, uma vez que essa é uma das formas de marginalização reservada à mulher.

Conversamos com três mulheres tatuadas a respeito de preconceito, discriminação e a forma com que o tratamento no ambiente profissional têm se adaptado e deixado de ser tão opressor.

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Foto: Arquivo Pessoal

Tatiane Tibério (24) é historiadora e conta que não sofreu preconceito para conseguir emprego, pelas tatuagens, mas sim pela cor do cabelo, na época vermelho e rosa.

“Tenho cinco tatuagens, cada parte do meu corpo escolhida tem a ver com o motivo de por não ter sofrido preconceito ou discriminação com elas, então tenho medo de acontecer algo parecido com a situação do meu cabelo e existir a possibilidade de não conseguir emprego novamente, ou não poder dar aula futuramente”.

“Minha mãe não gostou muito [das tatuagens] disse as mesmas frases que maioria das mães dizem ‘você vai ficar velha e vai ficar feio’. Eu não trabalhava na época que fiz a primeira tatuagem, mas passado alguns meses consegui um estágio remunerado em uma escola municipal como professora de artes, muitos não sabiam das tatuagens, mas aos poucos que foram sabendo tiveram a mesma reação que meus amigos, de falar que era muito bonita ou que eu era louca pelo tamanho e a suposta dor, alguns desses colegas de trabalho me pareciam não dizer o que realmente pensavam, mas melhor assim, que guardem pra eles”.

“Muitos homens acham que só porque uma mulher tem tatuagem ela é fácil e já me faltaram com respeito por verem minha tatuagem na coxa, alguns também não se aproximavam, outros gritavam coisas do tipo ‘tem outra tatuagem mais pra cima dessa’, ‘eu chupava essa tatuagem todinha e resto do corpo também’. E eu respondia, deixando bem claro que não queria nada, ou que eles não tinham chance comigo, então me xingavam de vadia, puta, etc”

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Foto: Arquivo Pessoal

Larissa Moleri (24) é advogada e também diz que nunca sofreu discriminação diretamente, “mas noto o olhar estranho e o receio de algumas pessoas quando minhas tatuagens estão à mostra, no entanto, no local de trabalho (escritório e fórum) evito usar roupa que as façam aparecer”.

Sua primeira tatuagem foi com 20 anos, “os locais escolhidos foram simplesmente por que eu gosto, mas também pelo fato de que se eu usar uma calça elas estariam escondidas, até por que em minha profissão usar calça é totalmente normal, mesmo nos dias mais quentes. Além do mais, quando as fiz eu já cursava o curso de direito, e sabia qual profissão exerceria, não era uma adolescente rebelde, já tinha amadurecido bem a ideia e o local”.

“Meus amigos apesar de inicialmente se assustarem com o tamanho (principalmente com a da coxa), sempre acharam elas legais e bonitas, e alguns falam que são a minha cara!  Mas minha família nunca aceitou totalmente, quando cheguei em casa e mostrei para minha mãe ela ficou dias sem falar comigo, mas depois passou, já tinha feito e ela precisava aceitar esse fato”

No trabalho, Larissa conta que “um dos advogados viu um pedaço de uma das minhas tattoos e perguntou o que era e então ele me contou que também tinha uma e que pegava as costas quase inteira, eu mesma fiquei digamos que chocada, nunca teria imaginado”.

“A sociedade ainda julgar a mulher como uma pessoa do sexo frágil, que precisa ser delicada, porém ainda tenho fé que a sociedade mude esse comportamento primitivo, principalmente com o crescimento de uma geração tatuada, sejam elas tatuagens pequenas ou grandes. Por mais que ainda tenha pessoas preconceituosas por aí, acredito que as coisas estão mudando, a tatuagem digamos que popularizou, não é mais algo incomum de se ver pelas ruas”.

Foto: Arquivo Pessoal.

Janaína Oliveira (30) é crediarista e diz ter sofrido discriminação por causa das tatuagens apenas uma vez e conta que veio de dentro de casa, “quando fiz uma tatuagem nova, meu pai disse palavras bem duras. Que aquilo era coisa de marginal e que um dia iria me atrapalhar de conseguir trabalho e ‘onde eu iria parar fazendo tantas tatuagens’. Eu levei numa boa. Apesar de tudo não me magoei nem me ofendi com as palavras dele. Adoro minhas tattoos. Sei que não sou marginal, e se um dia uma empresa não quiser me contratar devido às minhas tattoos, eu vou dar graças a Deus por não ter que trabalhar numa empresa retrógrada e de ideias tão fechadas”.

Janaína tem tatuagens no pé, panturrilha, canela, coxa, costas, costela, ombro, pulsos e braço, “eu não sei o porquê escolhi estes lugares. De repente eu olho para um determinado lugar do meu corpo e é como se eu sentisse uma tattoo ali. Aminha primeira foi por volta dos 21 anos, hoje tenho 30 anos e muitas ideias ainda para tatuar”.

“Comecei tatuando em um lugar onde eu pudesse esconder, se fosse preciso. Depois perdi o medo e hoje tatuo onde me der vontade, não tem porque eu querer esconder minhas tatuagens. Minha família é bastante tradicional e não gosta nada da ideia e sempre me pergunta o que vou fazer quando ficar velhinha enrugada e cheia de tatuagens, e eu respondo ‘ora, não vou fazer nada! A única coisa que vai acontecer é que minhas rugas vão ser coloridas’”.

“Eu acho que o preconceito quanto à tatuagem não está relacionado ao sexo do tatuado. Nunca passei por uma situação constrangedora por causa das minhas tatuagens. Até porque jamais alguém vai conseguir me deixar constrangida por algo que eu adoro! Cada uma delas diz algo sobre mim e sobre a minha maneira de ver o mundo”.

E conta uma situação em que ouviu de uma amiga que achava bonito tatuagens, mas não tatuagens ‘assim’. “Ela se referia à uma escrita que tenho na canela, que não é nem muito pequena,  nem muito feminina, mas não me senti constrangida, não. Fiquei até contente por não agradar o senso comum”.

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