Frente ao cenário histórico de baixa representatividade feminina, um grupo de mulheres começou uma alternativa, a criação de um movimento e projeto de partido político que quer levar o feminismo para dentro do Congresso e do poder.

A #partidA começou a ganhar suas primeiras estruturas em maio, através de reuniões em diversas capitais do país para discutir uma “democracia feminista” que inclua outros segmentos pouco representados na política institucional, como “negros, homossexuais e indígenas”, como explica a filósofa Márcia Tiburi, uma das lideranças da #partidA.

A coleta de assinaturas, necessária para a formação de um novo partido, só começará num outro momento. “Temos que reconstruir a política na esfera cotidiana, estamos nessa fase. Mas pensamos em eleição, em representação, em transformar o poder”.

A presença de uma mulher na Presidência da República desde 2011 não mudou um cenário excludente. No Brasil, as mulheres conquistaram o direito ao voto na década de 30 e nos dias de hoje a bancada feminina corresponde a 9% dos 513 deputados da Câmara e 16% dos 81 senadores.

Para a professora da UFRJ Susana de Castro, que participa da construção da #partidA no Rio, a ausência de mulheres da política é reflexo de fatores históricos e de uma tradição de exclusão da política brasileira. “Além disso, existe uma luta histórica do feminismo em fazer as mulheres reconhecerem que não são os homens, necessariamente, os seus representantes”, destacou ela.

“Lideranças masculinas nascem no grêmio do colégio, vão para o movimento estudantil, um partido o chama. E a mulher que está ali ao lado dele só escuta para se casar e ter filhos”, pontua a cientista política Débora Thomé, analisando as diferenças na criação das lideranças individuais, e acrescenta “A gente não quer mais direitos que os homens, queremos um mesmo patamar”, resumiu Débora Thomé.

Tiburi garante que homens são bem-vindos nas reuniões da #partidA, desde que não compartilhem de “machismos e racismos”. “Existem feminismos que desconsideram a participação do homem na construção do movimento, mas nós queremos o diálogo. Iremos tratar da questão do sexo, idade, educação, cidade, governo, saúde, cultura, tudo isso é do nosso debate”.

Por lei, as mulheres devem ser pelo menos 30% das candidaturas nos âmbitos municipal, estadual e federal, mas estudos feitos pela Secretaria das Políticas para as Mulheres mostraram que a norma foi desrespeitada na maioria dos estados nas últimas eleições, em 2014. O número bruto de candidaturas aumentou de 2010 para 2014 (de 3.572 para 6.413), mas mesmo assim não se atingiu os 30%.

Com a legislação, partidos não hesitam em colocar mulheres nas chapas apenas para tapar o buraco aberto pela obrigatoriedade da lei. Em junho, a Câmara rejeitou a Proposta de Emenda à Constituição que previa a criação de uma cota de 15% para as mulheres em todas as cadeiras parlamentares do país. A ideia inicial era de 30%, mas sem acordo, chegou-se ao número de 15% e mesmo assim não foi aprovado.

O desafio é tirar a discussão da #partidA de um âmbito predominantemente acadêmico para outros segmentos da sociedade. Segundo as lideranças do movimento, cidades do interior têm espontaneamente aderido ao projeto de criação de uma legenda feminista. Mesmo assim, elas ressaltam que para a mulher, no geral, é difícil encontrar tempo hábil para fazer política.

 Fonte: O Dia

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