TRAINSPOTTING – SEM LIMITES (Trainspotting, 1996, ENG) Com: Ewan McGregor, Johnny Lee Miller, Robert Carlyle, Ewen Bremer, Kelly McDonald. Dir: Danny Boyle

Certos filmes não passam em branco. Deixam a sua marca por diversos motivos: seja uma polêmica envolvendo os seus bastidores, seja um boicote por parte de grupo social, seja pela violência, seja pelo conteúdo. “O Exorcista” virou os anos 70 (especialistas em filmes marcantes, diga-se de passagem) de cabeça pra baixo e transformou o gênero do horror para sempre. Na década seguinte, podemos dizer que “Platoon” ou “O Clube dos Cinco” deixaram marcas em quem os assistiu em seus lançamentos.

Nos anos 90, Quentin Tarantino explodiu miolos no mundo todo com o seu “Cães de Aluguel” e, principalmente, com “Pulp Fiction”, em 1994. Quem diria que 2 anos depois um cineasta promissor iria trilhar o mesmo caminho, provocando o mesmo frisson e criando um objeto de culto aclamado pela crítica? Em 1996, Danny Boyle lança “Trainspotting – Sem Limites” nos cinemas, tornando-o um clássico instantâneo.

Baseado no livro de Irvine Welsh, “Trainspotting” narra as desventuras de um grupo de viciados em heroína pelas ruas de Edimburgo, na Escócia. Entre eles, temos Rent (Ewan McGregor), que acabara de se apaixonar pela estudante Diane (Kelly Mcdonald). Sick Boy (Johnny Lee Miller), Tommy (Kevin McKidd), Spud (Ewen Brenner) e Begbie (Robert Carlyle) completam o bando.

O cineasta Danny Boyle vinha de uma estreia de sucesso modesta, mas que fora responsável por o tornar famoso, ao menos na terra da rainha: o excepcional suspense indie Cova Rasa (sério, se você não viu, corre pra ver). Já na sua primeira incursão no cinema, Boyle mostrava um estilo narrativo próprio, tentando quebrar ou subverter alguns paradigmas cinematográficos. Entretanto, é com “Trainspotting” que o então futuro vencedor do Oscar por “Quem Ser um Milionário?” mostra a que veio.

O longa já começa de forma frenética, mostrando Rent correndo por becos e avenidas da capital escocesa, provavelmente fugindo da polícia. O personagem nos é revelado de forma abrupta, sendo quase arremessado na nossa cara. Nesse momento é possível observar uma característica que irá permear todo o filme: a ironia. Mesmo os momentos mais tensos, afinal trata-se de um filme sobre viciados, são narrados de forma tragicômica. Você ri. Mas se sente culpado ou nervoso na mesma hora.

A narrativa de Boyle é frenética e repleta de elementos pop (como, por exemplo, apresentar um personagem congelando a imagem sobre ele e mostrando o seu nome na tela, ou fazendo o ator falar com a câmera). É interessante observar como mais tarde esses elementos se tornariam cacoetes em produções que pretendem vestir esse verniz, digamos, pseudo avant guard.

Já o elenco é espetacular. Ewan McGregor teve a sua carreira alavancada, enquanto Robert Carlyle trouxe uma performance arrasadora com o seu violento sociopata Begbie. Outro destaque é o Sick Boy de Johhny Lee Miller. Viciado também em Sean Connery, os diálogos encabeçados por ele rendem vários dos melhores momentos do longa, com as suas toneladas de referências da cultura pop. A trilha sonora é um espetáculo à parte.trainspotting-photos-6

Claro que “Trainspotting” não passou incólume por polêmicas. Muito se disse (e se diz até hoje) sobre uma suposta apologia ao uso de drogas que o filme faz. Bem, as pessoas que costumam afirmar isso ignoram o fato de que Boyle desenha os seus personagens de forma repulsiva, não hesitando em mostra-los em situações degradantes e/ou vexaminosas. Claro que tudo regado a muito sarcasmo, mas afirmar que o filme é uma ode às drogas não passa de uma miopia cretina e reducionista.

Quase 20 anos já se passaram desde que “Trainspotting” viu a luz do dia pela primeira vez e estamos aqui, o analisando e discutindo e constatando o retrato microscópico de toda uma juventude. Dessa forma, pode-se dizer com a certeza de que o filme marcou toda uma geração ao conversar diretamente com ela com franqueza, entregando humor, cinismo e sagacidade. Sendo amado ou odiado, a obra-prima de Danny Boyle não deixa ninguém indiferente.

COTAÇÃO: EXCELENTEBG Raphael Travassos

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