Na cidade de Portalegre (RN) vive a comunidade quilombola Negros Felicianos do Alto, que ganhou do Governo brasileiro em 2007 a certificação de quilombo – nome dado aos assentamentos remanescentes dos tempos da escravidão –, dando aos moradores a titularidade da terra, uma luta constante para os descendentes de escravos fugidos, abrindo as portas para que projetos sociais atendessem os moradores.

Em todo o Brasil, mais de 2.600 comunidades já são certificadas como quilombolas, segundo o governo federal. Outras tantas se autodeclaram como remanescentes dos acampamentos de escravos fugitivos.

Oficiais ou não, elas têm dois traços comuns, a cultura riquíssima, com manifestações como a capoeira, o maculelê e a dança, e a baixa qualidade da infraestrutura e dos serviços públicos, decorrente em parte do isolamento dessas comunidades e da maneira como o Brasil lidou historicamente com sua população negra.

O país foi o último da América a abolir a escravidão, em 1888. Quase 130 anos depois, os afrodescendentes formam 14,5% dos pobres e 80% dos jovens assassinados. Já as brasileiras negras têm três vezes mais chances de morrer durante o parto. Contando, ainda com 50% de pardos e negros (somente negros são 7,6%), embora muitos ainda resistam a se autodeclarar.

“As pessoas tinham medo de se identificar como negras por causa do preconceito. Até pouco tempo atrás, muitos aqui se diziam morenos”, lembra o produtor cultural Aércio de Lima, 25 anos, para quem o reconhecimento é um passo na conquista de sonhos muito maiores.

Como muitos adolescentes de comunidades tradicionais na América Latina, as estudantes Maria Paula Teixeira, Juliana Bezerra e Edivânia Costa se equilibram entre dois mundos: nasceram em um quilombo e estudam na cidade.

Ainda que não seja um centro urbano enorme, mas tem escola, comércio, asfalto, iluminação pública e telecomunicações. “Adoro ficar nas redes sociais”, confessa Edivânia, 15 anos, que sonha se tornar policial.

Os Felicianos do Alto viviam quase esquecidos pela sociedade. Agora, aos poucos, eles buscam os objetivos das Nações Unidas para a recém-lançada Década dos Afrodescendentes (2015-2024): reconhecimento, justiça, desenvolvimento e fim da discriminação.

O desenvolvimento, em particular, é um tema que mobiliza os quilombolas deste pedaço do nordeste brasileiro. Quase todos os 80 lares da comunidade rural são apoiados por programas como o Bolsa Família, mas os moradores querem mais.

Além da transferência de renda, eles vivem com o pouco que obtêm da agricultura e do artesanato. “O Bolsa Família é um incentivo importante, mas não tem o peso de um emprego, que te dá uma autoestima especial”, comenta a artesã Maria Joseília da Silva, 34 anos.

Ela é uma das mais animadas com os novos empreendimentos a serem criados ali: uma minifábrica de lingerie e uma marca de moda e artesanato com identidade afro, ambas ideias das quilombolas. Os investimentos que tornarão isso possível vêm do projeto RN Sustentável, financiado pelo Banco Mundial para o governo do Rio Grande do Norte.

“O projeto prioriza as comunidades tradicionais e grupos mais vulneráveis como afrodescendentes, indígenas, mulheres e jovens, favorecendo os recursos e a assistência técnica necessária para viabilizar atividades produtivas”, explica a gerente do projeto, Fatima Amazonas, do Banco Mundial.

O projeto beneficiará um milhão de pessoas até 2019. Entre elas, os moradores de 27 quilombos em todo o estado.

Fonte: El País Brasil

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