GOODNIGHT MOMMY (Ich Seh, Ich Seh, 2014, AUT) Com: Susanne Wüest, Elias Schwarz, Lukas Schwarz. Dir: Severin Fiala e Vernika Franz.

Em linhas gerais, hype é um termo criado para definir aquela promoção exagerada em torno de uma pessoa ou produto. Ele pode ser fruto de uma boa campanha de marketing, que triunfa em pôr o objeto divulgado na boca do povo, viralizando-o, tornando-o conhecido.

O cinema é repleto de exemplos assim. Um dos maiores exemplos dos últimos tempos foi o maravilhoso “Mad Max: Estrada da Fúria” que, apesar de não ter rendido o rio de dinheiro que merecia, já se tornou uma peça importante da cultura pop contemporânea.

O gênero do horror também se beneficia disso, pois acaba atraindo espectadores para produções, em geral baratas e que muitas vezes dependem do boca-a-boca para serem distribuídos e assistidos.

Quando a fama se antecede ao filme em si, gera-se uma grande expectativa e o risco de decepção é iminente. Foi o que aconteceu com o australiano “The Babadook”, filme de terror indie sensação do início do ano, mas que apesar de ser adorada por muitos, se revelou uma obra irritante e muito mal resolvida.

Goodnight-Mommy

Goodnight Mommy é o hype da vez (talvez ainda não por aqui) não sofre do mal da expectativa versus realidade e é tudo o que Bababdook não conseguiu ser: hipnótico e perturbador.

Esse pequeno filme traz dois irmãos gêmeos vivendo numa casa isolada numa floresta temperada em algum lugar da Áustria, à espera da mãe que precisou passar algum tempo longe por conta de cirurgias plásticas. Quando ela volta, com o rosto envolto em ataduras e uma personalidade, digamos, diferente, os garotos passam a suspeitar que aquela mulher, talvez, não seja a sua mãe.

A premissa e a ambientação de Goodnight Mommy não são exatamente novidade. Casas isoladas e irmãos gêmeos envoltos em problemas incompreensíveis já serviram de base para inúmeros filmes do gênero. Entretanto, quando temos um diretor habilidoso, ciente de que o que tem em mãos não é exatamente a cura do câncer, as chances de ver algo relevante, ainda que manjado são grandes.

Tudo depende da execução. Veja o exemplo do recente de “A Invocação do Mal”, o velhíssimo conto da casa mal-assombrada foi relatado de forma tão competente por seu diretor (James Wan) que acabou rendendo um filme arrepiante e extremamente bem-sucedido. Isto porque Wan não tentou reinventar o gênero, mas sim, contar bem uma história que já fora repetida outras dezenas de vezes. É o caso da dupla de diretores de Goodnight Mommy. É uma velha história, só que muitíssimo bem contada.

Os diretores Severin Fiala e Vernika Franz acabaram por criar uma fábula perturbadora e incômoda, cuja atmosfera emula a sensação de que há algo errado desde os primeiros minutos. O desenvolvimento desse clima estranho se dá de forma lenta e gradual na primeira metade do longa. A desconfiança dos irmãos, alimentada por um comportamento irregular e deslocado da suposta não-mãe, cujo olhar azul se projeta de forma ameaçadora das bandagens, é sempre muito bem pontuada pelo silêncio que sempre inunda o filme.

Esse ritmo calmo pode irritar os mais ávidos pelo escapismo, tão acostumados com as vulgaridades que o cinema de horror contemporâneo insiste em despejar na plateia ­- sustos a cada 5 minutos, por exemplo – mas é fundamental para sustentar dramaticamente o que acontece na segunda metade do longa.

O tom muda radicalmente na transição do segundo para o terceiro ato. Ainda que os chocantes acontecimentos se deem de forma, repetindo, gradual, o ponto de vista narrativo agora é outro, mas não menos inquietante. O receio, agora dá lugar à incredulidade, ao incômodo.

Essa mudança de rumo, ressaltada pela estupenda atuação do trio de protagonistas, torna tudo ainda mais incrível e o melhor: plausível. Outro aspecto que torna Goodnight Mommy tão especial é a sua não necessidade em nos dar respostas. Elas surgem nos detalhes, nos pequenos detalhes. O espectador que a constrói, tendo a certeza de que não teve a sua inteligência sumariamente estuprada, como geralmente acontece em produções mainstream.

Muito se comparou esta pequena obra-prima ao já citado The Babadook. Torno a tocar nesse assunto porque não poderia concordar com tamanha injustiça. Enquanto o filme australiano depende de suas inúmeras homenagens a clássicos do horror (as citações vão de “O Gabinete do Dr. Kaligari” a “O Exorcista”, essa última especialmente risível) para sustentar a sua trama boba e de um teor freudiano primário, Goodnight Mommy faz muito mais com muito menos pretensão.

Há mais significado aqui, há mais complexidade, há mais camadas de interpretação. Não há histeria. O medo se dá na calma. O choque se faz na suspensão da respiração. O hype, nesse caso, deu certo. Possibilitou que essa pérola assustadora se tornasse acessível por aqui.

COTAÇÃO: ÓTIMO

BG Raphael Travassos

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