Quem riu da piada? Quem achou engraçado ver um homem vestido de preto, com o rosto pintado de preto, simulando espasmos e murmúrios que lembram macacos, sendo chamado de “Africano”, fazendo referência a cultos religiosos de matriz africana?

A tal liberdade de expressão blinda todas as tentativas de frear a manutenção do preconceito e a disseminação da intolerância e violência. O debate sobre o politicamente correto e os limites do humor deve ocorrer cotidianamente. O programa Pânico sempre foi um exemplo de baixa qualidade nos conteúdos, com estereótipos carregados de machismo, homofobia e racismo, sendo banhado em humilhações, depreciações e desrespeito.

O personagem da vez, “Africano”, encenado por Eduardo Sterblitch, fazendo o famoso e deplorável “black face” como uma representação de uma pessoa afrodescendente é de longe uma das coisas mais bizarras feitas pelo programa, que preza por ir contra a luta diária de desconstrução dos modelos engessados do humor do século passado.

A formação e manutenção dos estereótipos depreciativos de negras e negros reforçam a negação da identidade histórica brasileira que por muitos anos tentou e tenta fazer o embranquecimento da cultura, além de reforçar o imaginário imperialista sobre o continente africano, nutrindo a visão eurocêntrica de uma África faminta, de pessoas seminuas. Nesse sentido, esse processo de dominação e opressão faz parte do pensamento branco, elitista, que desapropria todo simbolismo que remeta a outra cultura, esvaziando a construção da identidade negra

Quem riu do “Africano” parece entender que o negro e o multicultural povo africano (que vai do Egito à Africa do Sul, passando por Madagascar) é um ser primitivo, que mais parece um símio, e acredita que a única forma de cultura que tem valor é a sua, ou melhor, a branca, a europeia, desconhecendo sua verdadeira origem, escondida sob máscaras de invisibilidade galgada em anos de exploração midiática.

O que devemos tomar ainda mais cuidado nessa severa representação, é que os meios de comunicação são concessões que têm como objetivo zelar pelos interesses públicos, respeitando os direitos humanos e a dignidade humana, e que a liberdade de expressão não deve ser usada quando for conveniente. É a garantia de se expressar livremente e sem ferir o outro. Liberdade é emancipação, senão, ela é liberdade pra quem?

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