“Só fala da minha vida quando a sua for exemplo”. Foi assim que MC Carol, a Carol Bandida, convidou os brasileiros a conhecê-la no reality show que estreou no fim de maio no canal de TV pago FOX Life. Pouco conhecida do grande público até então, a funkeira de 21 anos já gozava de certa fama em Niterói, onde ficou popular ao seguir os passos da mentora, Tati Quebra Barraco, com letras que ora são muito politicamente incorretas (“Jorginho me passa a 12, vou matar esse maconheiro”) ora beiram a ingenuidade (“vou trocar de namorado, quero ar condicionado”). Mas foi com Não foi Cabral, em que questiona o conceito de descobrimento do Brasil, que a funkeira chamou a atenção até de professores. “Fiz funk cult”, diz.

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Mulher, negra, pobre e obesa (num mercado dominado por gostosonas ou saradas), a funkeira de voz grave tem uma história comum a muitos brasileiros: nasceu na favela e foi criada pelos avós quando o pai foi preso e a mãe sumiu. Sonhava em ser juíza quando criança, mas teve de largar os estudos. Acabou entrando no funk ainda adolescente, quando gravou “Tô usando crack”, apesar de garantir ter aversão a drogas. Também já foi vítima de violência doméstica – acusou o marido de mantê-la em cárcere privado por ciúmes -, mas garante que a postura do parceiro mudou.

A contradição entre as letras de Carol e seu estilo de vida são evidentes e ela não nega. Admite que muito do que escreve é “para impressionar” e inspirado em “coisas que vê na comunidade”. Também não demonstra preocupação em ser um exemplo para jovens e crianças que a admiram. Mas nas redes sociais isso pouco importa. Ela já é “diva” para muitos e não são poucas a razões para isso: muitas minorias se veem representadas pela jovem funkeira, que esbanja auto estima e carisma. Leia os principais trechos da entrevista concedida ao EL PAÍS, por telefone.

P. Você considera o funk feminista?

R. Ah, sim… As minhas músicas são completamente feministas.

P. Mas tem uma música sua que fala que o “meu namorado é o maior otário”, porque ele “lava as suas calcinhas”. Isso não ajuda a propagar a ideia de que o homem não precisa dividir as tarefas domésticas com a mulher?

R. Então, eu coloquei esse refrão “meu namorado é o maior otário” pra causar um impacto. Mas eu não acho que um homem seja otário ao ajudar a mulher, entendeu? Eu acho que o meu marido é um exemplo de como os homens deveriam ser. Hoje em dia a mulher não fica mais em casa só cuidando de filho. A mulher também está trabalhando na rua, chegando junto nas contas. Aí assim, os dois trabalham fora, aí quando chega em casa só a mulher que tem que fazer as coisas? Não, não… Tem que dividir as tarefas sim. Acho que as mulheres tem que se impor mais, ter mais opinião, entendeu? Não deixar os sonhos para trás por causa de marido não.

P. Você geralmente canta sobre temas do seu dia a dia. De onde surgiu a ideia de compor “Não foi Cabral”?

R. Então, eu fui dar uma entrevista pra um pessoal do temas de dança, aí falando sobre a minha infância eu comentei que na época de escola eu debatia muito com as professoras, principalmente a de história, ela me botava pra fora e tal. E eu sempre fui uma aluna muito inteligente. A minha nota tinha que ser 10. Se eu tirasse 9,9 eu fazia um inferno na escola… Ia falar com o diretor, já até fui parar em delegacia por causa de 9,9, só que não deu em nada… Aí pediram um exemplo e eu contei que a professora falou que o Cabral descobriu o Brasil e eu falei que não. Que ele não descobriu nada. Que invasão não é descoberta. E aí eles falaram: ‘pô, Carol, faz uma música sobre isso, vai ficar maneiro’. E eu falei: ‘pô, mas não tem nada a ver com o que eu canto, escrever uma letra assim’. Mas aí eles: ‘pô, mas faz uma parada diferente, as pessoas vão se interessar’. E aí eu falei, ‘tá, vou ver essa parada aí’. Aí eu fiquei pensando tudo o que eu conheço, tudo o que eu sei, e eu peguei e escrevi essa música aí. Eu mostrei que sei fazer funk cult e as pessoas se amarraram, ainda bem…

P. E você também fala sobre a Dandara dos Palmares, esposa do Zumbi…

R. Então, no final da música eu falava sobre a Princesa Isabel. E uma amiga comentou: ‘pô, mas Carol, tá ligada na história, né? Que botaram uma mulher branca pra falar que tava lutando ali pelos negros, mas quem lutou mesmo foram os próprios negros’. Aí eu pensei sobre isso e fui pesquisar e resolvi botar a Dandara. Porque foram os próprios negros, não aceitando a escravidão, que se rebelaram. A Dandara lutou ao lado do Zumbi.

P. E você pensa em continuar por esse caminho do funk cult?

R. Eu gostei do resultado, foi uma experiência diferente, nunca tinha feito. Mas não sei se vai surgir outros funks desse estilo… Não sei. Ainda não sei dizer.

P. Quem você admira como mulher?

R. A Tati, né cara? A Tati Quebra Barraco. Ela faz essa linha também, feminista também e eu me amarro.

P. Você já disse que não sonhava em ser funkeira. Você está feliz hoje?

R. Eu não sonhava, né? Eu queria ser advogada até chegar à juíza. Infelizmente, tive que largar meus estudos, mas hoje eu amo o que eu faço. Se me perguntar: ‘ah, tem vontade de voltar e terminar os estudos?’ Não tenho vontade nenhuma, entendeu, nem de terminar o estudo, nem de fazer faculdade, nem de mudar a profissão. O que eu faço é complicado, é cansativo, mas é muito divertido. Eu ganho um dinheiro bom que dá pra me sustentar. Eu me sustentando com o funk há cinco anos e eu muito feliz.

P. Mas várias letras contradizem com a sua realidade. Você canta que o seu namorado é o “maior otário”, mas diz que seu marido é um exemplo. Você fala do crack, mas diz que nunca usou drogas… Você se sente representada pelas suas próprias músicas?

R. Assim, nem tudo o que eu canto eu vivo. A maioria das coisas que eu canto é coisa que as pessoas querem ouvir, ou que acontece na minha comunidade… Agora, essa música do crack eu escrevi com 15 anos. Eu não gosto dessa música, não canto em show. Eu gravei há muitos anos num estúdio dum DJ com quem eu trabalhava. Aí anos depois eu mudei de DJ, comecei a aparecer na TV, e ele produziu sem a minha autorização, gravou um vídeo com imagens de crianças usando crack e jogou na internet. Foi pra me fodermesmo, entendeu? Naquela época eu não tinha noção do que era o crack. Hoje eu tenho. E não gosto.

P. Algumas das críticas às letras de funk é que exploram a objetificação da imagem feminina. O que você acha disso?

R. Então, eu não acho legal uma mulher cantar de calcinha no palco. Eu não acho legal e eu não faria isso. Agora eu acho que a pessoa pode cantar o que quiser, entendeu… Quem tem boca fala o que quer. O que a casa de show pede, tem casa que pede um tipo de música, tem casa que pede outro tipo de música… Eu sou a favor da liberdade. Eu não sou contra a mulher cantar ‘ah, eu um objeto, meu marido manda mim e tal’. Eu não sou contra a mulher cantar isso. É que nem eu te falei, tem muitas coisas que eu canto que eu não vivo. O importante é trabalhar, é ganhar dinheiro. Eu acredito que tenha muitas pessoas que falam coisas que também não vivem. Agora, ficar rebolando de calcinha e mostrando tudo, tem mulheres que ficam até peladas no palco, já não acho uma mensagem legal a passar.

Entrevista publicada pelo: El País

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