Em tempos de instabilidade política e econômica, como a grave crise que o Brasil enfrenta agora, grupos sociais saem às ruas para protestar, um direito válido assegurado por lei em países democráticos. Não fugimos à regra. O país tem um histórico de manifestações em massa, tendo uma das mais célebres ocorrida em junho de 2013. Entretanto, após um processo eleitoral acirrado e a já citada crise surgindo numa nuvem de enxofre já nos primeiros dias de 2015, os brasileiros decidiram ir às ruas de novo. Só que dessa vez, um fenômeno vem chamando a atenção: o número daqueles que pedem a volta da ditadura militar.

No dia 16 de agosto, está programada uma nova onda de protestos e com eles, os cartazes pedindo o retorno dos anos de chumbo serão erguidos. Não sabemos, porém, se trata de ignorância ou diarreia ideológica. No caso da primeira opção, uma boa aula de história pode resolver o problema e (quase) nada melhor do que o cinema para ajudar a ilustrar a questão. Isto posto, recorri com um velho conhecido manifestante do estado democrático, que critica as tão amadas ditaduras, usando o seu cinema como um panfleto pró-liberdade.

Costa-Gavras é um cineasta grego radicado na França. Desde a gênese do seu cinema, ele dialogava com uma realização radical e corajosa que visa criticar estados ditatoriais. Sua estreia no cinema foi em 1969 com “Z”, um grande sucesso de crítica e público. Desde então não parou mais. Vieram filmes poderosos, aclamados por críticos e rechaçados por governos.

Os filmes de Gavras passaram anos na proibição. Era impossível vê-los por aqui. Mesmo com o fim da ditadura as produções de Gavras, que tinham uma distribuição internacional modesta, quase não ganharam as prateleiras tupiniquins. Quando ganhavam, sofriam mutilações severas. Só passaram a ganhar o mercado nacional em suas versões integrais, nos anos 90/2000 com a popularização dos DVDs.

Da extensa lista de obras políticas de Costa-Gavras, destacamos nas quais é possível vê-lo em sua melhor forma. Nelas, o cineasta alia a sua voraz crítica política a um senso cinematográfico irretocável. Pra quem gosta de suspense, os filmes de Gavras são excelentes indicações. Como documentos históricos, possuem valor. E como manifestos, são obrigatórios.

ESTADO DE SÍTIO (État de Siège, 1973, França/Itália/Alemanha Ocidental) Com: Yves Montand, Renato Salvatore, Jacques Weber. Dir: Costa-Gavras

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Em 1970, o corpo de um diplomata americano é encontrado num carro abandonado em uma rua qualquer de Montevideo. A partir desse momento, retrocedemos em um flashback para reconstituir o que teria acontecido com aquele homem. Os Tupamaros (grupo de guerrilha urbana uruguaia) logo ganham a cena e as peças do quebra-cabeças são jogadas na mesa. “Estado de Sítio” é um dos mais incisivos filmes de Gavras pois mostra de forma aberta o envolvimento de americanos nos regimes de exceção latino-americanos. Numa de suas cenas mais impactantes, é possível ver agentes da CIA ministrando aulas de como torturar presos políticos a militares brasileiros. Vemos um rapaz, de rosto coberto, levando choques elétricos nos pontos mais sensíveis do corpo. A câmera, posicionada diante do corpo nu do torturado, desvia a sua lente. Vemos agora o “ordem e progresso” estampado em nossa bandeira. Forte, não? Nem preciso dizer o quão descontente ficaram os militares brasileiros com esse filme. A narrativa é plural, não tendo exatamente um protagonista (o diplomata vivido por Yves Montand é o mais próximo disso) e o estilo é de semidocumentário, resultando num filme urgente e impactante.

A CONFISSÃO (L’aveu, 1970, Itália/França) Com: Yves Montand, Simone Signoret, Gabrielle Ferzetti. Dir: Costa-Gavras.

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Com “A Confissão”, Gavras sai das ditaduras de direita e mira a sua metralhadora para a ditadura comunista em um país do leste europeu não especificado, quando um membro do Partido é inexplicavelmente preso pelo governo que apoia. Atirado em uma cela sem saber o porquê, ele passará por diversas sessões de tortura, até que confesse um crime de traição que desconhece ter cometido. Gavras, como não poderia deixar de ser, foi extremamente criticado por partidários de esquerda por mostrar toda a paranoia e atrocidades políticas que também compõem esses regimes. A despeito da desesperadora trama kafkiana e do cansaço provocado por exaustivas cenas de tortura (principalmente psicológicas), a mensagem de Gavras é clara: ditaduras são nocivas em qualquer cenário, independente da inclinação política. A atuação de Yves Montand (habitual colaborador do cineasta grego) é comovente e a cena final é arrebatadora.

DESAPARECIDO – UM GRANDE MISTÉRIO (Missing, 1982, EUA). Com: Sissy Spacek, Jack Lemmon, John Shea. Dir: Costa-Gavras.

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Aqui bancado por um grande estúdio (Universal), Costa-Gavras cria um dos seus mais famosos filmes, ao contar a história da investigação promovida pelo pai e pela esposa de um jornalista americano desaparecido no Chile, durante o golpe de Estado imposto por Augusto Pinochet que depôs Salvador Allende da presidência daquele país, na década de 70. O que começa como um suspense de investigação (num exercício de montagem sensacional, diga-se de passagem) se transforma num poderoso drama, quando os terríveis segredos do golpe de Pinochet são escancarados à medida em que a perigosa investigação avança. Amparado pelas estupendas atuações de Sissy Spacek (Carrie – A Estranha) e Jack Lemmon (Quanto Mais Quente Melhor), “Desaparecido” é um daqueles filmes que demoram a sair da cabeça.

Z (Idem, 1969, França) Com: Yves Montand, Jean-Louis Tritignant, Irene Pappás, Jacques Perrin e Charles Denner. Dir: Costa-Gavras.

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Em 1963, pouco antes de estourar a ditadura militar na Grécia, um importante líder da esquerda grega (Yves Montand) é brutalmente assassinado durante uma manifestação. Um corajoso fotojornalista (Jacques Perrin) decide investigar por conta própria as circunstâncias do crime. Testemunhas começam a morrer misteriosamente quando começam a brotar indícios de membros do governo e da polícia no envolvimento da morte do político. O caso, real, foi um dos mais escandalosos da história judicial grega. Pistas foram sumariamente encobertas, pessoas foram eliminadas e Costa-Gavras conta essa história de forma excitante e provocadora, sempre nos mantendo atentos à sua intrincada trama. Um diretor menos habilidoso teria se perdido nos complexos caminhos que a narrativa fragmentada percorre. Ele não hesita também em criticar de forma irônica e incisiva as instituições políticas, que manipulam fatos de forma inescrupulosa a fim de legitimar posturas antidemocráticas. Por fim, “Z” se revela um impressionante thriller político, mordaz e inquietante, que, sem concessões, revolta e nos faz refletir. Um exemplo da sagacidade corrosiva de Gavras se dá já nos primeiros minutos do longa quando a frase “Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas não é casual. É intencional” preenche a tela. Um filme obrigatório.

BG Raphael Travassos

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