Herdeiro do cinema mudo, Alfred Hitchcock (que dispensa maiores apresentações) sempre se apoiou nas imagens para contar as suas histórias. As suas narrativas, extremamente visuais, acabaram criando obras primas que fizeram imenso sucesso de público. As que não fizeram tanto sucesso, tornaram-se clássicos e são estudadas por seus virtuosismos técnicos e permanecem vivas graças ao seu tom, realização, teor psicológico e simbolismos. Ou tudo isso junto. Isto posto, essa lista não pretende enunciar os melhores filmes de Alfred Hitchcock. Existem muitas listas assim e os citados sempre são os mesmos: Psicose, Janela Indiscreta, Um Corpo que Cai (apesar de Os Pássaros ser o meu preferido). Quero evocar os que foram esquecidos. Os Hitchcocks menores, menos famosos, mas tão geniais quanto e, cada um ao seu modo, tão espetaculares quanto os seus irmãos mais famosos.

5 – Um Barco e Nove Destinos (Lifeboat, 1944, EUA) Com: Tallullah Bankhead, William Bendix, Walter Slezak.

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No auge da segunda guerra mundial, Hitchcock produziu esse filme que gerou certa polêmica por jogar os seus personagens num dilema moral deveras interessante: quando um navio aliado é afundado por uma embarcação nazista, oito sobreviventes se refugiam em um bote. No meio do caos, acabam resgatando um alemão que mais tarde será descoberto ser o capitão da nau alemã que os afundou. O que fazer com aquele que provocou o desastre?

Um Barco e Nove Destinos foi um fracasso de crítica e de público. É um flerte do mestre com um cinema político mais sério, provocador e que tem um subtexto que pretende ser discutido. Trata de um assunto delicado, com um rigor cênico impressionante: o filme se passa todo no bote salva-vidas. O mais interessante é que o ritmo não arrefece, pois o roteiro numa decisão brilhante resolve criar um outro dilema: aquele que em tese deve morrer, pode ser a salvação dos náufragos. Um dos filmes mais obscuros do mestre é, curiosamente, um dos mais virtuosos, sérios e equilibrados de toda a sua filmografia. Merece ser redescoberto.

 4 – Correspondente Estrangeiro (Foreign Correspondent, 1940, EUA) Com: Joel McCrea, Laraine Day, Herbert Marshall, George Sanders.

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Depois de sua carreira finalmente deslanchar na Inglaterra, Hitchocck foi levado para Hollywood pelo produtor David O. Selznick (do monumental “E O Vento Levou”). A parceria, apesar de ter rendido ótimos filmes, era extremamente conflituosa. Assim, Selznick acabava “emprestando” Hitchcock para outros estúdios (na Hollydood clássica, esses empréstimos eram comuns, uma vez que os diretores “pertenciam” aos produtores). Num destes empréstimos nasceu Correspondente Estrangeiro: um thriller de espionagem excitante que, apesar do sucesso inicial (fora inclusive indicado a seis Oscar) não se tornou tão famoso quanto “Rebecca – A Mulher Inesquecível”, que Hitchcock dirigira para Selznick no mesmo ano.

No longa, um jornalista americano é enviado ao continente europeu para tentar uma entrevista com um proeminente diplomata holandês. Um assassinato acaba acontecendo e joga o cínico jornalista numa complicada trama envolvendo espiões e a iminência da guerra. Apesar do elenco desconhecido, Hitchcock criou um suspense de primeira (inclusive superior a Rebecca), belissimamente fotografado num P&B expressionista e repleto de reviravoltas que culminam num clímax espetacular a bordo de um avião em queda livre.

3 – Festim Diabólico (Hope, 1948, EUA) Com: James Stewart, John Dall, Farley Ganger.

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Outra maravilhosa demonstração de virtuosismo técnico e cênico de Alfred Hitchcock, Festim Diabólico tem uma trama, digamos, diabólica: dois jovens rapazes resolvem matar um colega de faculdade porque querem provar a si mesmos que existem crimes perfeitos. Numa virada inacreditavelmente macabra, resolvem dar uma pequena festa onde os quitutes serão servidos em cima do baú que guarda o corpo da pobre vítima. Aqui voltamos a um ambiente confinado, a exemplo de Um Barco e Nove Destinos. Sai o bote salva-vidas, entra o apartamento dos assassinos.

Com Festim, Hitchcock foi ambicioso: queria filmar tudo num grande plano sequência. Falhou. Dessa tentou minimizar ao máximo os cortes, criando um cenário que se movesse, de modo a permitir a fluidez das câmeras e dos atores. Dessa forma, não são as câmeras que movem, mas o cenário! É possível contar não mais do que 10 cortes, num filme que tem 80 minutos de duração! Tecnicamente brilhante, Festim ainda tem um teor extremamente instigante e bem avançado para a época: os assassinos são notadamente homossexuais. A dinâmica da tensa relação entre os dois reflete-se, inclusive, em tangenciais referências ao papel sexual que cada um dos rapazes desempenha nas suas intimidades. Ironia e humor sarcástico num brilhante jogo de gato e rato tornam Festim Diabólico um dos melhores e mais experimentais filmes do mestre do suspense, ainda que não tão famoso quanto outros. Imperdível.

2 – O Homem Errado (The Wrong Man, 1956, EUA) Com: Henry Fonda, Vera Miles, Anthony Quaile.

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Em O Homem Errado, Hitchcock visita um tema recorrente em sua filmografia: o do homem comum atirado numa situação da qual não tem controle ao ser acusado de algo que não fez. No caso, temos um músico (vivido por Henry Fonda) que é confundido com um ladrão. Preso, ele tentará provar a sua inocência.

Essa produção de 1956 acabou sendo esmagada entre os sucessos de “Janela Indiscreta” e “O Homem que Sabia Demais” (lançados em 54 e 56, respectivamente) e representa uma mudança radical no tom dos filmes do mestre: trata-se de um drama sério, e até sombrio, com zero humor, conduzido de maneira sóbria, despida de qualquer arroubo visual, e carregado nas tintas do pessimismo. É um dos trabalhos mais pessoais de Hitchcock e talvez seja o que possui as melhores atuações. Henry Fonda imprime ao seu simplório Manny uma dramaticidade profunda e tocante, enquanto a Rose de Vera Miles é devastadora. Praticamente desconhecido, sendo raramente citado até pelos fãs do diretor, O Homem Errado é a tradução em celuloide das neuroses do seu realizador e, enquanto cinema, se revela uma obra prima.

1 – Trama Macabra (Family Plot, 1976, EUA) Com: William Devane, Bruce Dern, Barbara Harris e Karen Black.

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Trama Macabra é o derradeiro filme do mestre, e também um dos seus mais subestimados trabalhos. Produzido numa época em que o cinema se recuperava do choque realista provocado por “Tubarão”, esse suspense de humor sombrio parecia deslocado no tempo. Isso porque Hitchcock, já com a saúde bastante debilitada, não abria mão do conforto do cenário, evitando gravar externas. Assim, o uso excessivo de chroma key quase prejudicou a experiência de uma plateia que estava se tornando cada vez mais cínica e pouco paciente com a narrativa antiquada de um velhinho doente.

Aqui temos basicamente duas histórias distintas em rota de colisão: de um lado, temos um casal de criminosos que vive sequestrando pessoas e exigindo o resgate em joias. Do outro, um outro casal, agora formado por um taxista abobalhado e uma falsa vidente, encarregada de encontrar o herdeiro de uma velha senhora rica, a quem estava aplicando mais um golpe. A despeito do tom “artificial” que Hitch impôs, Trama Macabra é um suspense deliciosamente divertido e recheado com o seu finíssimo humor inglês. As reviravoltas são inteligentes e o filme se revela uma grande e despretensiosa brincadeira. Poucas vezes o canto do cisne de um diretor foi tão delicioso.BG Raphael Travassos

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