“Mad Max – Estrada da Fúria” estreou esse ano após um hiato de 30 anos da cinessérie. Dirigido pelo homem que trouxe o louco das estradas ainda em 1979, George Miller, “Estrada da Fúria” foi aclamado pela crítica, foi sucesso de bilheteria e já figura entre os melhores filmes de ação dos últimos anos. Tudo muito bom, tudo muito bem. Er… nem tanto.

O filme de Miller surpreendeu muita gente ao ter como protagonista não o Mad Max, mas uma mulher: a Imperatriz Furiosa. O personagem vivido com maestria por Charlize Theron representou uma mulher forte, empoderada e combativa, que não se dobra perante a opressão masculina de um mundo pós-apocalíptico dominado por eles. O roteiro, de forte conotação feminista, foi alvo de polêmica, incluindo um boicote ao filme sugerido por um grupo americano de ativistas dos direitos dos homens (sim, isso existe).

Agora “Mad Max”… digo, a “Imperatriz Furiosa”, chega em DVD e por esse motivo resolvi homenagear algumas das heroínas mais badass do cinema de ficção e horror, gêneros majoritariamente protagonizado por homens que sempre bate nas teclas da personagem feminina indefesa ou da sobrevivente virgem. Os filmes abaixo não só fogem desse clichê idiota como criam personagens realmente importantes não só para a indústria do cinema, como para cultura pop em geral.

Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (Millennium, 2012, EUA) Com: Daniel Craig, Rooney Mara, Stelan Skarsgard Dir: David Fincher

feminismo no cinema

Resolvi começar logo polemizando. Muitos admiram e até preferem a adaptação original sueca para o livro best-seller de Stieg Larsson, mas eu sempre reafirmo: a americana é melhor. Isso porque temos aqui todo o exercício de estilo cinematográfico característico de David Fincher (“Garota Exemplar”) que acertou, inclusive, ao cortar a gordura do material inspirador e se concentrar no desenvolvimento da bizarra trama. Isso posto, vamos ao que interessa: a nossa heroína. Lisbeth Salander é uma jovem de vida conturbada que se vê envolvida numa investigação que tenta descobrir o paradeiro da herdeira de uma influente família sueca. Entretanto, as pistas a conduzem (junto com o cabeça da investigação, o jornalista Mikael Blomkvist, vivido por Daniel Craig) para uma trama muito mais estranha e complicada do que parece.

Rooney Mara representa uma Salander com toda a dureza de quem teve uma vida extremamente difícil e com a complexidade que a personagem exige. Salander encontrou no olhar gélido de Mara (indicada ao Oscar de melhor atriz) o distanciamento necessário. Ela pode parecer inexpressiva, mas não se engane: há muito mais sob a superfície e ela desempenha o papel com maestria. É impossível não se identificar com a personagem, especialmente quando ela começa a ser uma peça extremamente importante na resolução do mistério que permeia o longa.

Você é o Próximo (You’re Next, 2011, Autrália/EUA) Com: Sharni Vinson, Joe Swanberg, Nicholas Tucci, Wendy Glenn. Dir: Adam Wingard.

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O que prometia ser um belo fim de semana de confraternização familiar se transforma num pesadelo quando um grupo de assassinos mascarados resolve massacrar todos os membros da família, sem motivo aparente. O que os algozes não esperavam é que uma das convidadas, Erin (Sharni Vinson), resolve… revidar. E a altura. O que se vê, a seguir, é um instigante jogo de gato e rato envolvendo machados, martelos, madeiras com pregos e muita correria.

“Você é o Próximo” traz um plot bem batido (invasão à casa de campo tem como maiores expoentes os maravilhosos “Horas de Desespero” e “Sob o Domínio do Medo”, de 1951 e 1971, respectivamente), mas consegue trabalhar bem os clichês do gênero ao acrescentar uma heroína capaz de rivalizar com os assassinos em pé de igualdade, sempre usando a inteligência e pouquinho de sangue frio. A Erin, de Vinson, não é só movida pelo instinto de sobrevivência, mas também pelo sentido do contra-ataque mesmo. Tudo é feito com muita ironia e uma pitada de humor ácido. Exemplo disso é quando questionada como conhece as técnicas de luta, Erin se atém a soltar um “tive uma adolescência esquisita”.  Melhor é impossível.

Aliens – O Resgate (Aliens, 1986, EUA) Com: Sigourney Weaver, Michael Biehn, Bill Paxton, Lance Henriksen. Dir: James Cameron.

feminismo no cinema

Nesta continuação anabolizada do clássico absoluto “Alien – O Oitavo Passageiro”, de 1979, a distante lua que serviu de cenário para o filme anterior, agora vem sendo colonizada pela inescrupulosa companhia Yutani. Quando os colonizadores perdem o contato, a Yutani resolve mandar aquela que conhece bem os aliens, afinal, ela sobreviveu a um massacre: A tenente Ripley. Ela então se vê no meio de uma infestação gigantesca, mas as coisas são diferentes: ela sabe como lidar com eles.

James Cameron sempre gostou de apresentar papéis femininos fortes. “O Exterminador do Futuro 2” é um excelente exemplo disso. A diferença é que a Sarah Connor do filme com Schwartzenegger tem uma aura excessivamente masculinizada, quase resvalando na caricatura. Quase. A tenente Ripley de Sigourney Weaver, ao contrário, mesmo tendo uma postura forte e determinada, de liderança segura e assertiva, possui os seus momentos de fragilidade, revelando uma persona acima de tudo humana.  Essa dubiedade que a personagem carrega acabou rendendo a Weaver uma indicação ao Oscar de melhor atriz em 1986. No mais, ela protagoniza cenas de ação e suspense de tirar o fôlego, incluindo uma icônica batalha final cuja frase de efeito “stay away from her, you bitch” tornou-se clássica. E se no filme de 79 Ripley era uma coadjuvante alçada a protagonista só no terceiro ato, aqui é ela quem manda.

Abismo do Medo (The Descent, 2005, INGLATERRA) Com: Shauna Macdonald, Natalie Mendoza, Alex Reid. Dir: Neil Marshall.

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Um grupo de amigas adeptas de esporte radicais resolve se juntar novamente, um ano após um trágico acidente que traumatizou uma delas, para explorar uma caverna nos Montes Apalaches. Quando um deslizamento as prendem lá dentro, elas logo descobrem que não estão sozinhas e que o melhor era ter ficado em casa, mesmo.

“Abismo do Medo” é um pequeno filme de terror inglês que fez sucesso de crítica na terra da rainha. Um dos maiores fatores para isso é, sem dúvidas, a sua protagonista. Shauna Macdonald que interpreta Sarah, a amiga traumatizada que vê na aventura uma chance de se reaproximar do resto do grupo, além de tentar esquecer o que aconteceu. Quando o instinto de sobrevivência aflora e de bandeja Sarah descobre que nem todas ali são tão amigas assim, ela se transforma numa heroína das mais instigantes, ao combater aquilo que a persegue pelas paredes úmidas e claustrofóbicas da caverna: nem que sejam os segredos do passado. Um filme sensacional, sufocante, excitante e que traz mulheres fortes e independentes que certamente subvertem o termo “mocinha” dos filmes de terror.

A Hora do Pesadelo (Nightmare on Elm Street, 1984, EUA) Com: Heather Langenkamp, John Saxon, Johnny Depp, Robert Englund. Dir: Wes Craven.

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Se um pedófilo que morrera queimado conseguisse se transformar numa entidade que massacra os seus amigos enquanto eles dormem, e sonham, e que você logo será uma das vítimas, o que você faz? Provavelmente se pelaria de medo, certo? Foi mais ou menos isso que Nancy Thompson fez. Mais ou menos. Imaginada pelo mestre Wes Craven, a Nancy de Heather Langenkamp, (que desistiu de ser atriz e hoje trabalha como maquiadora) tem muito de outra heroína criada por ele, a Sidney Prescott da série “Pânico”: ela é jogada numa situação aterradora por motivos aparentemente desconhecidos, mas que logo aprende que só fugir não vai resolver muita coisa.

Veja também: A SURPREENDENTE ASCENSÃO DO FEMINISMO NEGRO

Nancy não se contenta quando os adultos não acreditam que um espírito maligno tá mandando os adolescentes do subúrbio pro saco. Ela resolve investigar o passado do assassino por conta própria, confrontando os próprios pais (que guardam muitos segredos, por sinal) e partindo pro ataque ao elaborar um complicado plano: trazer o infame espírito assassino que atende pela alcunha de Freddy Krueger para o mundo dos “vivos” e matá-lo por essas bandas. É aquela máxima: se quer bem feito, faça você mesmo. Ao que parece Nancy Thompson aprendeu rapidinho e levou isso ao pé da letra.

BG Raphael Travassos

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