Todo ano ocorre o Video Music Awards e pouco discutida é a tensão racial que envolve o evento. Para quem não sabe, “Video Music Awards” (ou VMA) é um dos eventos mais importantes de premiação de música norte-americana. Nos meses que o antecedem, a mídia inunda suas plataformas com notícias sensacionalistas de barraco de celebridades. Todavia, longe de simples “briga de divas” como por muitos interpretado, o conflito tem seu furo mais embaixo.

Para entender melhor, precisamos ter em mente que o racismo se trata de uma opressão estrutural a qual o sistema capitalista se apropria e se ramifica em diversas formas de exploração e discriminação. Sob o pretexto de tornar mais comercial e vendável certo produto, pessoas negras são apagadas e tornadas invisíveis nas diferentes mídias. Frente às barreiras que diversas artistas encontram no mercado, seu talento ou habilidade se fazem secundários ou insuficientes e isso não é de hoje.

Elvis Presley se transformou em um ícone da música pela sua “voz de negro” e por “dançar como negros”; não é à toa, por exemplo, que ninguém diz que tal pessoa tem “voz de branca”, afinal brancos sempre bastam por si só. O sucesso de Elvis Presley vem de sua imagem comercial, não pelo seu talento. A meritocracia é falácia conhecida e, em uma sociedade que nega as oportunidades de pessoas negras em todos os momento, essa é mais uma faceta.

Trazendo o debate a uma realidade mais contemporânea, consideremos o cenário pop atual. Se analisarmos Beyoncé e qualquer cantora branca atual (Katy Perry, Taylor Swift, enfim), a discrepância do tal do “talento” é gritante. Enquanto para brancas basta o rosto bonito e um bom empresário, para uma cantora negra a perfeição em todo e qualquer momento é necessidade básica.

Esse fenômeno – sintomático do racismo – já foi apontado no VMA de 2009 por Kanye West. Ao ser anunciado que Taylor Swift havia ganhado o prêmio de “Melhor Video Feminino”, Kanye invadiu o palco e disse que Beyoncé deveria ter ganho. Embora todos amem uma briga entre celebridades e mídia faça questão de intensificá-las de modo sensacionalista, seu discurso não se tratava de um ataque à Swift, mas de um ataque à indústria cultural racista que pretere e deixa de reconhecer o trabalho de diversos artistas negras e negros. É óbvio, contanto, que tachar de “briga de celebridades” é mais interessante do ponto de vista econômico; afinal, em um mundo em que notícias são mercadorias, o sensacionalismo surge como meio de atrair leitores e, logo, gerar lucro.

No ano passado, Miley Cyrus depois de causar grande rebuliço na mídia com o vídeo polêmico de “Wrecking Ball” não somente foi indicada, mas levou o prêmio. Nicki Minaj realizou o mesmo: um vídeo polêmico e ousado de “Anaconda”, quebrou recordes também, mas nem indicada ela foi. Sobre o fato, a própria cantora comentou no twitter: “Se eu fosse um ‘tipo’ de artista diferente, Anaconda seria indicado como melhor coreografia e como vídeo do ano também“. E continuou: “Quando ‘outras’ garotas liberam vídeos que quebra recordes e impacta a cultura elas são indicadas“.

O poeta B. Easy ilustra bem a cena com um tweet seu: “Culturas negras são populares, mas pessoas negras não”. Miley Cyrus tem cada vez mais usando elementos de culturas negras em seus vídeos e usando mulheres negras como acessórios para seu novo estilo, seja através do twerk, do vestuário ou até mesmo em sua fala. A sua mais nova polêmica foi nessa semana ao fazer dreads para apresentar o VMA, ato que não passou em branco pelos movimentos negros. A utilização de uma estética negra como símbolo “fashion” vem da década de 60/70 em paralelo à explosão do movimento negro nos EUA.

Os dreads têm um valor simbólico enorme de empoderamento estético negro. Enquanto nos brancos é visto como um estilo “good vibes“, nos pretos são “sujos” ou “coisa de maconheiro”. O esvaziamento de seu significado enquanto símbolo de resistência é, portanto, um desrespeito à luta. E tal ato vindo de Miley Cyrus não pode deixar de ser visto como mais uma provocação racista.

Ainda sobre a declaração de Nicki Minaj sobre o VMA, mais uma vez Taylor Swift personificou o debate em si própria ao passo em que perdeu de vista a real questão. Nicki Minaj havia declarado também: “Se você faz um vídeo com várias mulheres magras, você será nomeada ao vídeo do ano”.
Desconfortável com a declaração, Swift respondeu: “Nicki Minaj eu não faço nada além de te amar e te apoiar. Não é legal você colocar uma mulher contra a outra. Talvez, um dos homens tenha roubado seu lugar“.

Apesar de Swift ter se desculpado por ter achado que se tratava de uma indireta, Katy Perry entrou na discussão e tweetou: “Acho irônico usar o argumento de colocar uma mulher contra a outra quando uma delas lucra imensuravelmente ao rebaixar outra mulher…” e ainda reclamou pelo fato do vídeo de “Bitch Better Have My Money” da Rihanna não ter sido indicado.

Ontem, Nicki Minaj e Taylor Swift se apresentaram juntas na abertura do VMA e Minaj fez questão de demonstrar seu desconforto em se apresentar ao lado dela com caras e bocas. Longe de uma briga de divas pop, como o senso comum coloca por aí, o que ocorreu ali foi um momento explicito da tensão racial que permeia o evento. Não se trata de fazer um dueto e selar a “paz” entre as cantoras, porque não se trata de uma guerra entre as duas. Seu desconforto advém de todo o racismo pelo evento perpetuado.

Ainda ontem, como uma forma de gerar polêmica e mais audicência, segundo Kanye West, a organização do VMA anunciou que quem o entregaria seu prêmio seria Taylor Swift. Além disso, em seu discurso, o rapper se desculpou pelo episódio e pela forma que a mídia tratou. De fato, de modo muito desonesto a mídia se aproveitou da polêmica para reproduzi-la infinitamente e alcançar o lucro e, apesar de suas muitas falas machistas e misóginas, não podemos perder de vista a coerência de Kanye frente a um problema estrutural. Aliás, quem muito fala sobre a questão da indústria e o racismo é a cantora Azealia Banks.

Há algum tempo, a rapper já vem causando desconforto na indústria por suas declarações precisas e provocadoras sobre apropriação cultural. Sobre o mesmo VMA, ela comenta: “Todos os meus vídeos merecem um VMA e meu álbum merece um Grammy, mas eu nunca vou ganhar um porque a América não gosta de mulheres negras com opinião”. De fato, temos apenas três cantoras negras principais no cenário: Beyoncé, Rihanna e Nicki Minaj – todas, por sua vez, sofrem com a tentativa de embranquecimento pela indústria. Não podemos associar o número limitadíssimo de cantoras negras e a escassez de sua representatividade ao mero acaso, quando novas cantoras brancas de uma música só fazem sucesso e são lançadas pela indústria diariamente.

Através de breves análises e da exposição de diversas polêmicas que surgiram nos últimos anos, tento desmistificar o senso comum de que se tratam de simples guerras de ego entre celebridades megalomaníacas em busca de marketing. Sendo um evento de extrema importância para uma indústria cultural racista, capacitista, machista, gordofóbica, entre outras opressões, é gritante a necessidade de um olhar menos ingênuo. A discussão não é cantora X contra a cantora Y. O debate aqui é racismo, é indústria, é embranquecimento, é apropriação cultural, é visibilidade. Parem de minimizar e relativizar as diversas formas que o racismo adquire. Chega de achar “barraqueiro” quem denuncia o racismo. Chega de achar que imagem da Nicki Minaj e da Taylor Swift de ontem é só mais um meme a ser usado. Há muito o que perpassa entre caras e bocas.

BG ARTUR SANTORO

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