“O cinema é a maior diversão”. Correto? Bem, nem sempre. Tá certo que na maioria das vezes procuramos fugir de nossas realidades ao ver um filme. No mero escapismo dos filmes de ação “mentirosos”, no romance ideal das comédias açucaradas, na fantasia dos épicos míticos, na excitação das tramas intricadas dos suspenses policiais ou nos passeios de montanha dos filmes de terror, o objetivo é um só: queremos nos entreter. Entretanto, algumas vezes nos deparamos com situações difíceis também do lado de dentro da tela. Dramas que nos marcam seja por suas histórias – ou pelo teor delas –  seja pelo que essas histórias representam, ou por uma simples identificação. Elas nos emocionam e, não raro, nos deprimem. Por isso, resolvemos listar alguns dos filmes mais deprimentes e/ou tristes do cinema moderno. Não que sejamos viciados em tristeza, mas às vezes ela é inevitável. Não é mesmo, Divertida Mente?

O HOMEM ELEFANTE (The Elephant Man, 1980, INGLATERRA) Com: John Hurt, Anthony Hopkins, Ann Bancroft. Dir: David Lynch.

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O filme mais “normal” de David Lynch (Veludo Azul) é um daquelas experiências que a gente não esquece tão cedo. A trama é inspirada na história real de Joseph Merrick (vivido por John Hurt), um jovem inglês que, por razões desconhecidas, tinha o corpo coberto por tumores que os deixavam com a saúde extremamente debilitada e uma aparência repulsiva. Merrick fora descoberto por um cirurgião (Anthony Hopkins) enquanto era exibido num circo de horrores nos arredores de Londres. Mesmo despertando a simpatia das pessoas ao seu redor, Merrick também é alvo de inúmeras humilhações, provocadas por ignorância ou por pura maldade, e Lynch se aproveita disso para criar um retrato cruel da nossa (des)humanidade e parece querer nos dizer que nossas vidas não são tão miseráveis quanto acreditamos que seja.  Numa das cenas mais poderosas do longa, Merrick, desesperado por estar sendo perseguido na rua, grita: “Eu sou um ser humano!”. Apesar de estar debaixo de uma pesadíssima maquiagem, o trabalho de John Hurt como Merrick é comovente e devastador. Recomendadíssimo.

LONGE DELA (Away From Her, 2006, CANADÁ) Com: Julie Christie, Gordon Pinsent e Olympia Dukakis. Dir: Sarah Polley.

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Fiona (Julie Christie) vive com o seu marido, Grant, um professor aposentado (vivido por Gordon Pinsent) perto de Ontario. Quando ela começa a desenvolver os primeiros sinais do Mal de Alzheimer, os dois decidem que talvez seja melhor interná-la numa clínica. Por exigência da clínica, Grant não pode visitar a esposa antes de 30 dias, num período de adaptação. Quando Grant volta a ver Fiona, ela não o reconhece mais e pior: se apaixonou por um dos internos. A estreia da atriz Sarah Polley (Madrugada dos Mortos) é de uma melancolia doce, mas de cortar o coração. A atuação da dupla de protagonistas é contida e, por isso mesmo, mais humana e é conduzida com sensibilidade por Polley. Um filme triste, mas essencial.

MAR ADENTRO (Mar Adentro, 2004, ESPANHA) Com: Javier Barden, Belen Rueda. Dir: Alejandro Amenábar.

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Ramón Sampedro sofreu um terrível acidente enquanto mergulhava. Em consequência ficou tetraplégico. Passou os últimos 30 anos da sua vida lutando pelo direito de se submeter ao procedimento de eutanásia. É isso. A história por si só, já é um soco no estômago e ainda temos um Javier Barde (no papel que o consagrou no mundo inteiro) arrasador como Sampedro. A narrativa de Amenábar costura o drama real do seu personagem com lembranças e momentos oníricos, onde fantasia amar mulheres e voltar a andar. A viver. Sampedro vegeta. Aleija os seus familiares. A dureza com que somos conduzidos é espantosamente aplacada por momentos de pura beleza e poesia, mas nada que nos faça esquecer a condição do protagonista.

RÉQUIEM PARA UM SONHO (Requiem for a Dream, 2000, EUA) Com: Jared Leto, Jennifer Connelly, Ellen Burstyn. Dir: Darren Aronofsky

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A história de três viciados em drogas resultou num dos filmes mais aclamados dos anos 2000, além de ter catapultado a carreira de Darren Aronofsky (Cisne Negro, Noé). Trata-se da crônica sombria de uma viagem sem volta à mais baixa das condições humanas. Entorpecidos, os personagens protagonizam situações assustadoras e degradantes. “Réquiem para um Sonho” beira o horror psicológico com a sua narrativa sufocante, que atordoa e choca. O resultado, perturbador, apesar do verniz pop, dificilmente deixará incólume quem o assistir.

NÃO ME ABANDONE JAMAIS (Never Let Me Go, 2010, INGLATERRA) Com: Carey Mulligan, Andrew Garfield, Kiera Knightley. Dir: Mark Romanek.

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Três jovens que cresceram numa estranha escola interna situada no interior da Inglaterra se envolvem num triângulo amoroso. O que eles ainda não sabem é que eles mesmos são clones que foram criados com o único objetivo de fornecer órgãos a quem puder pagar. Essa pequena ficção científica é um dos trabalhos mais delicados e melancólicos do gênero e a direção de Mark Romanek é estilosa e dona de uma narrativa calma, que saboreia o tempo de projeção com respeito e profundidade. A cena final é uma das coisas mais lindamente tristes que já vi.

REENCONTRANDO A FELICIDADE (Rabbit Hole, 2010, EUA) Com: Nicole Kidman, Aaron Echart, Dianne Weist, Miles Teller. Dir: John Cameron Mitchell.

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O drama de um casal que não consegue lidar com a trágica morte do seu pequeno filho é uma pequena obra-prima. Pequena no tamanho: poucos atores, narrativa econômica, mas imensa na carga dramática: há cenas de poderosa carga emocional, pontuada pela atuação magistral de uma Nicole Kidman inspirada (no ensaio digno de uma volta por cima depois de sucessivos fracassos). Os diálogos são pungentes. A trilha sonora é delicada e nunca invasiva. As lágrimas são inevitáveis.

BG Raphael Travassos

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