O dia 1º de setembro é marcado historicamente no Japão, como o dia do ano em que o maior número de jovens com menos de 18 anos cometem suicídio, por ser o início da volta às aulas. Segundo o governo japonês, de 1972 a 2013, mais de 18 mil crianças se suicidaram. No ano passado, o país registrou pela primeira vez o suicídio como primeira causa de morte para pessoas entre 10 e 19 anos.

Assustado com as estatísticas, Maho Kawai, bibliotecário da cidade de Kamakura causou polêmica ao tuitar, “o  segundo semestre está quase chegando. Se você está pensando em se matar, porque você odeia a tanto a escola, por que não vem para cá? Temos quadrinhos e romances leves. Ninguém vai brigar com você se passar o dia inteiro aqui. Lembre-se de nós como um refúgio, se estiver pensando em escolher a morte em vez da escola”.

Em apenas 24 horas, a nota de Kawai foi retuitada mais de 60 mil vezes. A iniciativa foi criticada, já que na prática se trata de um funcionário municipal incentivando crianças a não irem à escola. Mas para muitos, ele pode ter ajudado a salvar vidas.

“O meu uniforme escolar parecia tão pesado quanto uma armadura. Não podia aguentar o clima da escola, o meu coração disparava. Pensei em me matar, porque teria sido mais fácil”, escreveu o aluno Masa, cujo nome real não pode ser publicado para preservar a sua identidade, afirmando que se não fosse a mãe compreensiva, que o deixou ficar em casa “matando aula”, teria se suicidado no dia 1º de setembro.

A declaração de Masa foi dada a um jornal para crianças que decidem não ir à escola. “Começamos essa organização não-governamental há 17 anos, porque em 1997, tivemos três incidentes chocantes envolvendo alunos de escolas pouco antes do começo das aulas”, afirmou o editor da publicação, Shikoh Ishi.

Duas das crianças citadas por Ishi se mataram no dia 31 de agosto. Mais ou menos na mesma época, outros três alunos atearam fogo à escola que frequentavam, porque não queriam voltar às aulas. “Foi aí que percebemos como havia crianças desesperadas e queríamos dar o recado de que não existe esta escolha entre escola ou a morte”.

Para muitas crianças japonesas, a competitividade da sociedade japonesa é insuportável. O governo japonês também lançou uma série de iniciativas – entre linhas telefônicas e outros serviços – para dar apoio a potenciais suicidas de todas as idades, mas mesmo assim, na semana passada, um jovem de 13 anos se matou no dia da cerimônia de abertura do segundo semestre.

O próprio Ishi chegou muito perto de se matar nesta idade, “me sentia desamparado, porque odiava todas as regras, não só as da escola, mas também aquelas entre as crianças. Por exemplo, você precisa observar cuidadosamente a estrutura de poder para evitar o bullying“, disse. “Mesmo assim, se você decide não se juntar a eles, corre o risco de virar a próxima vítima.”

Para ele, o problema maior é a competitividade da sociedade japonesa, que o fez pensar em suicídio, por não conseguiu entrar em uma escola de elite.”O pior de tudo é uma sociedade competitiva, na qual você tem que derrotar os seus amigos”, e acrescenta que, em japonês, o termo usado para exames de admissão inclui a palavra “guerra”. O que o salvou da morte foi que os seus pais encontraram o bilhete de suicídio e não o obrigaram a ir à escola. “Quero que as crianças saibam que você pode escapar da escola, e que as coisas vão melhorar.”

Fonte: UOL

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