O horror é um gênero que costuma ser rechaçado. Seja por aqueles que simplesmente evitam assistir a um filme de horror, por ter medo, seja por aqueles que o desprezam.  Por estes últimos, é considerado um celeiro de produções baratas, geralmente cheia de gente sem talento e destinada a pessoas doentes que se divertem com o “lixo” que é despejado na tela.

Em parte, isso é verdade, convenhamos. Mas mesmo a parte verdadeira não deixa de ser exagerada. O horror, afinal, já fora tratado como produto de primeira linha (os filmes de monstros da Universal dos anos 30 e 40, são um exemplo disso), além de ser composto por mentes inteligentes e fundamentais. Jacques Tourneur, Mario Bava, Roger Corman e o David Cronenberg em início de carreira podem ser citados com todo o louvor como alguns dos gênios desse gênero tão desprezado.

Um deles, e dos mais importantes do horror moderno, deixou órfã toda uma geração de fãs, ao morrer de forma repentina, vítima de um câncer cerebral: Wes Craven. Isso posto, resolvi passear pela carreira do cineasta, revisitando os meus melhores e mais importantes filmes, nesse artigo que pretende fazer uma pequena homenagem ao mestre.

Craven nasceu no estado de Ohio nos idos de 1939. A sua estreia no cinema se deu em 1972 com The Last House on the Left, que aqui no Brasil ganhou a medonha alcunha de “Aniversário Macabro”. A trama girava em torno de duas jovens que são brutalmente torturadas (uma delas morre). O grupo que cometera a atrocidade, (numa cena repulsiva, diga-se de passagem) acaba se hospedando na casa de uma das moças, sem saber, durante uma tempestade. Quando os anfitriões acidentais descobrem a barbaridade, acabam executando um plano de vingança ainda pior, transformando os algozes em vítimas.

Apesar de ser fruto de sua época (a cena da tortura é um exemplo clássico de cinema exploitation), “Aniversário Macabro” acabou provocando sem querer uma discussão interessante sobre como vítimas de violência acabam se tornando também violentos ao optarem pelo justiçamento. Claro que Craven só queria fazer um filme chocante, mas é impossível não pensar nessa questão ao ver o filme. “Aniversário” acabou sendo proibido em diversos países por conta do seu teor, mas a verdade é que ele é até bem tímido para os padrões atuais e acabou abrindo as portas para outro clássico: O Massacre da Serra Elétrica, em 1973.

Em 1977, outro clássico que tem vingança como mote: “Quadrilha de Sádicos”, ou The Hill Have Eyes, no original. Em “Quadrilha”, uma família média burguesa americana, em viagem pelos EUA, acaba sendo brutalmente assediada por outra, digamos, menos média. Trata-se de uma família de sobreviventes de testes nucleares feitos pelo governo no deserto, que acabou conferindo aos seus integrantes terríveis deformações e um peculiar gosto por carne humana. “Quadrilha” tem um visual mais apurado, sem a pegada amadora de “Aniversário Macabro”, mas é tão radical e irascível quanto.

Muitos o consideram o melhor filme de Craven e não é difícil entender o porquê: além de conseguir criar um clima apavorante e extremamente tenso, ainda há um subtexto interessantíssimo sobre a disputa de classes e a luta pela sobrevivência, o que pode nos fazer retroceder a um estado de desumanidade. Olha os ecos de “Aniversário Macabro” aí… Por fim, dá para dizer que “Quadrilha de Sádicos” é um cult movie indispensável. Mas o melhor, ah, o melhor ainda estava por vir.

Os anos 80 chegam e junto com eles, os Jasons e Michael Myers tomam de assalto os cinemas e drive-ins. Só nos primeiros anos da década, até 1983, pra ser exato, já tínhamos três episódios de “Sexta-Feira 13”, dois de “Halloween” e mais um sem-número de outros slashers movies (filmes de horror que contam com assassinos mascarados que massacram adolescentes com qualquer objeto perfuro cortante). O gênero capengava em produções que acabaram o banalizando com exagero e a indestrutibilidade dos serial killers. Foi nesse cenário que Wes Craven ressurgiu para salvar o horror. O ano é 1984. Nasce um ícone. Freddy Krueger.

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“A Hora do Pesadelo” tinha uma sacada genial: o assassino em questão ataca as suas vítimas enquanto elas sonham, o que possibilitaria que o inesquecível Freddy Krueger pudesse fazer todo o tipo de peripécia sádica antes de dar cabo de pobres incautos. O roteiro de Craven ainda consegue criar toda uma subtrama envolvendo o passado de Krueger, o que acaba tornando a entidade terrivelmente queimada e com garras de metal, uma figura tridimensional e de personalidade própria.

 

O sucesso foi instantâneo e absoluto. Além de uma verve pop e moderna, “A Hora do Pesadelo” revelou ao mundo um dos maiores astros de Hollywood hoje: Johnny Depp. A série, lamentavelmente acabou se tornando vítima de inúmeras sequências de baixo nível sem a batuta de Craven, que voltaria para salvar a sua franquia em dois momentos: atuando como produtor executivo na parte 3 e dirigindo a parte 7, em 1994. Essa parte 7, apesar de ter sido um fracassado de bilheteria, é sem dúvida, a melhor das sequências e a sua metalinguagem nos prepararia para um fenômeno que acometeria o mundo dois anos depois.

Em 1996 o horror penava mais uma vez. Os serial killers não assustavam mais ninguém. Jason já tinha ido pro inferno (literalmente na parte 9), Michael Myers, coitado, viu a sua série ir pro ralo no horroroso “Halloween 6”. Nesse cenário desolador, Wes Craven lança “Pânico”, um dos mais bem-sucedidos filmes de terror da história.

Além de criar mais um ícone pop (o assassino da máscara de fantasma, ou Ghostface), Craven se aproveita do roteiro de Kevin Williamson para destilar toda a sua ironia no gênero que ajudou a sedimentar, não obstante a corrosiva sátira aos lunáticos que põem a culpa de suas sanhas assassinas em filmes de terror. Outro passe de gênio. Como thriller “Pânico” também é um triunfo: bem atuado, repleto de cenas clássicas (a introdução com Drew Barrymore é avassaladora) e verdadeiramente surpreendente.

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“Pânico” virou febre: inaugurou um fillão (“Lenda Urbana”, “Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado”, “O Dia do Terror”, entre muitos outros) virou paródia (em “Todo Mundo em Pânico”) e, claro, ganhou as suas sequências, todas muito boas (particularmente ainda acho a parte 2 a melhor de toda a série).

O canto do cisne de Craven foi, justamente, “Pânico 4”, de 2011. O público, obviamente, já não era mais o mesmo de 1996, e não estava mais disposto a encarar mais uma brincadeira macabra de Craven, que agora mira a febre de remakes além de ridicularizar as subcelebridades virtuais (bloggers, vloggers, youtubers e afins). O filme foi um fracasso de bilheteria, apesar de ter agradado aos críticos. Uma pena! “Pânico 4”, é divertidíssimo, com um clima de suspense muito bem construído e um clímax maravilhoso.

Craven morreu. Foi noticiado como o “ícone do horror”, “mestre do horror” ou “grande diretor de filmes de horror”. Mais uma prova de quanto o gênero pode ser subestimado. Associar o gênero a que Wes Craven pertenceu (apesar de ter flertado com o drama, por exemplo, em “Música do Coração” com Meryl Streep) é reduzi-lo.

Ninguém diz que Woody Allen é um “grande diretor de comédias” ou que Scorsese é um gênio dos filmes de máfia. Não. São citados apenas como os gênios que são. Wes Craven era apenas o gênio que era. Apesar dos tropeços na carreira, eles existiram e não foram poucos, a sua contribuição foi seminal e ele merece ser tratado como tal. Os fãs o tratam e mantém o seu legado vivo. Quanto aos demais, deveriam dar uma chance.

BG Raphael Travassos

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