Aqueles pequenos seres humanos que nos fazem rir, que nos preocupam, que viralizam nas redes sociais com vídeos fofos onde aparecem fazendo graça para os seus pais ao não os deixarem cortar as suas unhas. Impossível não querer apertar uma coisinha dessas. Entretanto, crianças também podem ser assustadoras? Pelo menos é assim que o cinema pensa. Duvida? A lista abaixo tem de tudo um pouco: menina sendo possuída pelo tinhoso, menino que é filho do próprio, crianças alienígenas que querem dominar o mundo, a caçula da família que é a porta de entrada para o mundo dos mortos e pré-adolescentes que “resolvem” se vingar dos adultos. Entre outras fofuras. Vem!

7 – A ALDEIA DOS AMALDIÇOADOS (Village of the Damned, 1960, Inglaterra) com: George Sanders, Martin Stephens, Laurence Naismith. Dir: Wolf Rilla.

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Numa pequena cidade no interior da Inglaterra, as pessoas são misteriosamente acometidas por uma espécie de desmaio coletivo. Meses depois, algumas mulheres estão grávidas. Todas no mesmo tempo de gestação. Alguns anos se passam e essas crianças agora possuem uma capacidade cognitiva extraordinária ( e poderes telepáticos), além de esconderem algo muito maior e assustador. Este pequeno clássico de ficção científica é uma obra-prima do cinema inglês. As crianças, lideradas por Martin Stephens (que faria outra criança apavorante em “Os Inocentes”) têm uma aparência estranha e à medida em que demonstram as suas capacidades para os moradores da pequena cidade, o filme todo ganha uma aura de ameaça e mistério.

6 – A INOCENTE FACE DO TERROR (The Other, 1972, EUA) com: Uta Hagen, Diana Muldaur, Chris e Martin Udvarnoky. Dir: Robert Mulligan.

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Sabe “Goodnight Mommy”, aquele filme elogiadíssimo que trazia dois irmãos gêmeos como protagonistas de uma situação, digamos, incomum? Bebeu na fonte desse suspense psicológico dos anos 70, dirigido por Robert Mulligan, o responsável por “O Sol é Para Todos”. Aqui, os gêmeos em questão (cada um com uma personalidade bem definida e diferente do outro), vivem numa área rural americana nos anos 30. Quando estranhos acidentes começam a aterrorizar a pequena comunidade, segredos do passado começam a emergir.  O filme possui um enredo interessante, mas que é conduzido de forma lenta por Mulligan. As coisas começam a ficar realmente mais tensas e excitantes do segundo para o terceiro ato, quando a sensação de tragédia passa a permear os personagens de forma mais assertiva. Mesmo assim, o que se vê antes é um belo exercício de suspense cheio de excelentes atuações, com o devido destaque para os gêmeos Udvarnoky.

5 – Os Inocentes (The Innocents, 1961, Inglaterra) com: Deborah Kerr, Peter Wyngarde, Martin Stephens, Pamela Franklin. Dir: Jack Clayton.

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Quando a Srta. Giddens (Debora Kerr) vai trabalhar como a governanta numa mansão isolada na Inglaterra Vitoriana, ela terá que conviver com duas crianças (um menino e uma menina, irmãos) que podem ter sido as catalisadoras de uma bizarra tragédia que se dera ali anos antes. Além disso, uma figura fantasmagórica masculina passar a provocar distúrbios no local. “Os Inocentes” é considerado um dos maiores filmes de terror de todos os tempos e com razão. Trata-se de um horror psicológico dos melhores, repleto de subtextos e camadas, onde nada é o que parece. As crianças, angelicais ao passo em que podem ser diabólicas, são os vetores para o desabamento psicológico de uma mulher experiente, e também misteriosa. A fotografia em preto e branco é espetacular. “Os Inocentes” acabou servindo de fonte para outro filme de terror famoso: “Os Outros”, estrelado por Nicole Kidman e que fez muito sucesso em 2001.

4 – Poltergeist: O Fenômeno (Poltergeist, 1982, EUA) com: Jobeth Williams, Craig T. Nelson, Heather O’Rourke, Zelda Rubinstein. Dir: Tobe Hooper.

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Quem não lembra da frase “Carol Anne, afaste-se da luz”? Pois é. Esta superprodução de Steven Spielberg fez um enorme sucesso em 1982 ao trazer a sua protagonista mirim como a fonte de distúrbios sobrenaturais que acometem uma família de classe média norte-americana, além de ela própria ser o elo entre o nosso mundo e o dos mortos. Quanta responsabilidade para uma garotinha, hein? “Sequestrada” por forças do além, Carol Anne é a peça chave de um filme excitante, extremamente bem produzido (embora os efeitos especiais tenham envelhecido um pouco) e repleto de cenas memoráveis, que envolvem manifestações espectrais amistosas (como a da figura feminina descendo a escada num momento importante do filme) e corpos decompostos emergindo de uma piscina em construção.

3 – A Profecia (The Omen, 1976, EUA/Inglaterra) com: Gregory Peck, Lee Remick, Billie Whitelaw, David Warner e Harvey Stephens. Dir: Richard Donner.

O embaixador americano em Roma, Robert Thorn recebe uma terrível notícia: o seu filho recém-nascido acabara de morrer. Ainda no hospital, descobre que a sua esposa ainda não soube da tragédia. Um padre misterioso, então, surge e o faz uma proposta: adotar um menino que nasceu na mesma noite, cuja mãe morrera no parto. Sem que a sua esposa saiba, Thorn aceita a proposta. Uma bênção, certo? Er… não. Quando o pequeno Damien completa 6 anos de idade, ele parece ser o centro de uma torrente de suicídios, assassinatos e incidentes violentos envolvendo para-raios, chapas de vidro e cães raivosos. Investigando tudo com a ajuda de um fotógrafo, Thorn descobre que aquela dádiva é na verdade o filho do anticristo e que um plano de dominação global está em curso. Simples assim. Atenção para a maravilhosa trilha sonora de Jerry Goldsmith (vencedora do Oscar) que utiliza cantos gregorianos para criar uma sinfonia sinistra, tendo como música-tema uma missa negra cantada em latim. É assustadora.

2 – O Exorcista (The Exorcist, 1973, EUA) com: Ellen Burstyn, Linda Blair, Max Von Sydow, Jason Miller.  Dir: William Friedkin.

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O maior e mais famoso filme de terror de todos os tempos traz como plot uma garotinha que é possuída pelo Demônio. A trama, relativamente simples e supostamente baseada em fatos reais ocorridos nos anos 40, tem muito mais a dizer do que aparenta: trata-se do confronto interno de cada um dos seus protagonistas, canalizados pela possessão da pobre menina. Dirigido com um realismo impecável por William Friedkin, “O Exorcista” marcou toda uma geração justamente por conta de sua abordagem urbana e doméstica (saem os castelos góticos ou mansões vitorianas e entram personagens que poderia ser nossos vizinhos) e por uma encenação explícita e violenta. Apesar de ter como maior ícone a sua protagonista endemoninhada, “O Exorcista” tem como maior trunfo a difícil atuação de Ellen Burstyn como a mãe da menina (um papel que foi rejeitado por várias atrizes). Burstyn vai de cética à desesperada em duas horas de projeção sem nunca resvalar no exagero.

1 – Os Meninos (Quien Puede Matar a um Niño? 1976, Espanha) com: Lewis Fiander, Prunella Ransome, Antonio Iranzo. Dir: Narciso Ibáñez Serrador.

Um casal de turistas ingleses vai visitar uma pequena ilha espanhola. Ao chegar, encontram o local aparentemente deserto, o que desperta curiosidade certo receio. Após andarem um pouco, descobrem que todos os adultos foram mortos pelas crianças do lugar, aparentemente sem motivo. Isolados, farão o possível para escapar da inexplicável sanha assassina das crianças. Serrador quis fazer do seu “Os Meninos” como uma espécie de manifesto contra os adultos, que sempre infligem as suas crianças a situações de perigo ao deflagrar guerras e confrontos em geral. Essa seria a vingança delas. Isso fica claro já nos créditos iniciais, quando são apresentadas terríveis imagens de crianças em situações degradantes de flagelos de todo o tipo. Pode parecer sensacionalista, mas nunca gratuito. O que também faz de “Os Meninos” o filmaço que é, é o fato de Serrador gastar boa parte do tempo fazendo com que os espectadores se apeguem aos protagonistas. Criada a empatia, o desespero do pobre casal escorre pela tela e inunda quem assiste ao filme.  Uma pérola niilista e desoladora, desconhecida por aqui, que merece ser descoberta.


Raphael Travassos é historiador por formação e cinéfilo de coração. Aprendeu a amar a sétima arte ainda criança, ao conhecer as obras de Alfred Hitchcock, num festival exibido na TV aberta. Hoje,preenche o seu tempo vendo filmes e escrevendo sobre eles.

 

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