Em uma constatação calma, uma reflexão, um beira mar, uma calçada leve, de um sol calmo, uma manha. Pronto. Uma manha de vida que você sai de casa apenas carregando um sorriso e vai sendo levado. Foi assim que me senti ao ouvir César Lacerda pela primeira vez.

O primeiro acorde de “Algo a Dois” me deu as mãos e fomos juntos nos deliciando pela poesia de amor que vinha em cada música. Mas tem dor. Tem frustração. E uma voz doce que conta e canta, e encanta cada descoberta que vai se revelando.

César é mineiro, mas já foi carioca antes de ser paulista. Está em seu segundo disco “Paralelos & Infinitos”, que foi o que eu o conheci, e quando terminei na oitava música, apertar o play foi instintivo. Eu precisava mais “daquilo”.

Nos últimos anos, alguns artistas puderam gravar as canções de César, e um desses cantores foi o também sensacional Filipe Catto, com a música “Um milhão de novas palavras”, em parceria do carioca Fernando Temporão. “A música trata dessa indignação que a gente sente com relação à vida, à política, à falência de um modelo de sociedade. É uma canção muito forte, muito potente. E o Filipe, que é o maior cantor da minha geração, o maior intérprete, colocou a canção num lugar fortíssimo. No seu show, essa canção tem um peso especial, o público fica atônito!”, acrescenta César.

Em entrevista, conversamos sobre o (espetacular) disco novo, carreira, turnê e muita mais. Vem nesse papo, coloca o disco pra ouvir, e se deixe surpreender.

Como e quando começou sua carreira?

Sou nascido numa pequena cidade do interior de Minas Gerais, Diamantina, cuja relação com a cultura é rica e muito profunda. Minha mãe é pianista e foi diretora do conservatório de música da cidade. Então, o enlace com o universo da música e das artes nasceu muito cedo para mim. E de forma muito natural. Estudei, ainda na primeira infância, diversos instrumentos e estive sempre conectado com a música.

Com 15 anos, lancei o primeiro disco. Com uma banda que se chamava (cLAP!). Eu tocava bateria, piano, flauta, marimba e cantava. Depois, alguns anos mais tarde, em 2010, lancei um disco com a compositora mineira Luiza Brina: “Ouça de Fone”.

Mas o meu projeto solo se iniciou há menos tempo. O meu primeiro disco, “Porquê da Voz”, foi lançado em 2013, seguido do meu mais recente trabalho, “Paralelos & Infinitos”, lançado pela Joia Moderna em 2015.

Você é mineiro, mas já foi carioca antes de ser paulista, acredita que essas mudanças te deram outra visão ao processo criativo?

César Lacerda

Gosto do trânsito. Gosto de colecionar cartografias, novos amigos, jeitos novos de olhar para a vida, novas lógicas. A ideia de que podemos percorrer o mundo, gastar tempo pelas cidades, fazer delas uma casa, tudo isso me interessa imenso.

Nasci em Diamantina, onde fiquei até os meus 11 anos, depois me mudei pra Belo Horizonte, e depois para o Rio de Janeiro – em ambas as cidades, vivi por oito anos. E agora, acabo de chegar à São Paulo. Cada cidade teve sua força e importância nos meus processos íntimos, o que aprofunda bastante o jeito como se se dedica à arte. Penso na arte como um espelho dessas profundezas do ser. E a maneira como esse mergulho ao profundo se dá, de se ir criando vincos na existência em busca de um sentido pra vida, e portanto, para a arte que se cria, tem relação exclusiva com esse trânsito, a maneira como a gente vai se deslocando pela vida.

Tenho gostado muitíssimo de viver em SP. A forma como a cidade compreende o artista, dá atenção aos seus processos, à sua criação. Tenho me sentido muito bem recebido aqui, e isso traz um gás, dá vontade de se dedicar com mais afinco ainda a tudo.

Como foi o nascimento do “Paralelos e Infinitos”? Quem esteve contigo no projeto?

Esse disco nasceu a partir de uma relação amorosa de grande intensidade. Ele trata exclusivamente disso; da diversidade de sentimentos que o amor (in-)compreende. Da forma expressiva com que um sentimento se impõe para a criação, a forma vigorosa como o amor cria implicações, traz liberdade para tudo. Cria possibilidades da gente se libertar de tudo e criar. Jogar-se ao infinito, permitir-se, enfim.

E para fazer um disco sobre isso, sobre essa minha aventura, eu precisei mergulhar em mim, sentir como é que eu queria fazer a música que soava dentro de mim vir para fora, para a escuta do ouvinte. E portanto, fiz um disco onde toco 90% dos instrumentos.

Tive colaborações pontuais de artistas como o Cícero, a Mahmundi, o Lucas Vasconcellos, o Uirá Bueno. E a produção musical muito dedicada e delicada do Pedro Carneiro, que fez todo esse processo de adensamento das coisas todas soar com uma leveza especial e espacial.

Como está a gravação do videoclipe de “Paralelos”, e quem assina a produção?

No ano que vem, lançarei, ainda no primeiro semestre, o videoclipe de duas canções do disco: “Olhos” e “Touro Indomável”.

O primeiro dos videos, da canção “Olhos”, tem a direção de um grande amigo, o ator mineiro Alexandre Hugo. Este clipe pretende evidenciar a carga mais dramática dessa canção. É um clipe em P&B, que usa uma técnica de dupla exposição, misturando imagens minhas e imagens da cidade de São Paulo.

Já em “Touro Indomável”, que é uma produção RJ e SP, que envolve a Tocadiscos, o Rodolfo Veludo e o Guilherme Janini, faremos um clipe de animação. A canção é um roteiro pronto e a ideia surgiu de forma quase óbvia!

Estou ansioso para lançar. O material está ficando lindo!

Como foi sua participação no Cantautores? E como estão as datas da turnê?

A Mostra Cantautores é um festival maravilhoso que acontece anualmente em Belo Horizonte e tem uma característica única: realizar apresentações de artistas que cantam o que compõe na sua versão mais íntima. Ou seja, o Cantautores vão ali e realizam os seus shows acompanhados apenas do instrumento que eles usam para compor suas canções. Muito intimista e muito potente.

Eu estive na noite de abertura do festival, tocando num teatro lindíssimo de BH, lotado! O show foi primoroso. E depois de mim, tocou o amigo querido Marcelo Jeneci. E tivemos a oportunidade de tocar ali uma parceria inédita nossa: “Canto Azul” (uma canção oracular, feita em conjunto; além de mim e do Jeneci, Paulo Monarco e Dandara).

Para o ano que vem, já estou em fase de negociação para os shows de lançamento do disco. Assim que o ano começar, depois do 9 de fevereiro do carnaval, eu anuncio essas datas!

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