Segundo a coordenadora do Fórum Itinerante de Cinema Negro (Ficine), Janaína Oliveira, o cinema negro brasileiro alcançou qualidade internacional e já é referência, embora pouco conhecidos no próprio país. A premissa veio após percorrer festivais internacionais discutindo e divulgando produções brasileiras que representam a desconstrução dos estereótipos e ampliam as representações nos espaços mais diversos.

Em entrevista à Agencia Brasil, ela falou sobre o crescimento das produções e delimitou alguns parâmetros para entendimento do que é o cinema negro. “O cinema negro tem toda uma história, que começa nos Estados Unidos, passa pela diáspora negra, caminha por vários lugares. Por exemplo, hoje, além do samba, carnaval e futebol, temos o estereótipo da violência na favela presente. [O filme] Cidade de Deus [ambientado em uma favela e com protagonistas negros] claramente não é cinema negro. A questão é: dá para fazer imagens contra-hegemônicas, que desconstroem o estereótipo dentro de um grande estúdio de cinema ou de uma grande rede de televisão?”, indaga a professora.

Em 2014, um levantamento feito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), apontava para a sub-representarão da mulher negra no cinema nacional. Para Janaína, também doutora em história e professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) o filme “Kbela” (2015), de Yasmim Thainá rompe essa lógica mercadológica da exploração da imagem negra.

 Janaína Oliveira é coordenadora do Fórum Itinerante de Cinema Negro (Ficine)

Janaína Oliveira é coordenadora do Fórum Itinerante de Cinema Negro (Ficine)

Com quatro sessões lotadas no prestigiado Cinema Odeon – incluindo a primeira lotação para 600 pessoas após reforma da casa, no centro do Rio de Janeiro, “Kbela” é um dos mais importantes representantes de uma leva de produções feita por negras, são narrativas que contam com mulheres negras na direção, na produção e como protagonistas.

O cinema é uma indústria de dinheiro que constrói imagens que querem ser vistas, e o padrão adotado dessa linguagem é do cinema de Hollywood, e que se repete nas estruturas eurocêntricas, onde a fórmula que separa o lugar das pessoas negras e brancas são claramente identificadas, como explica a pesquisadora. “O que você vê, em geral, são negros e negras em situação de subserviência, nunca em destaque, sempre com atributos negativos. Isso está no universo da colonização da cultura, do gosto, da estética”, esclarece Janaína.

Ela destaca os trabalhos de Renata Martins, “Aquém das Nuvens” e “Empoderadas”, Juliana Vicente, “Cores e botas” e “Minas do Rap” e o filme sobre os Racionais MCs (em fase de produção). Viviane Ferreira, “O Dia de Jerusa” (que participou do Festival de Cannes). Do Tela Preta [coletivo de realizadores negros ligado à Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)], e de Larissa Fulana de Tal, “Lápis de Cor” e “Cinzas”.

Para Janaína, “a formação de público é uma questão central. Os filmes precisam ser vistos. Mas mostrar os filmes [em salas de cinema ou televisão] não é suficiente, se fosse, o problema estava resolvido. As pessoas não veem porque elas não gostam e mudar o gosto leva muito tempo”. Segundo ela, é necessário criar uma rede de distribuição desses filmes, junto com debates, além de mais editais e parcerias com os estados, que facilitaria tanto a produção, quanto a circulação.

Com informações de Brasileiros e Agência Brasil

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