Lili Elbe foi uma das primeiras transexuais a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo. Nascida Einar Wegener, um pintor de sucesso na Dinamarca no fulgurante limiar do século 20, Elbe começou a “surgir” quando Einar precisou posar para a sua esposa, Gerda (também pintora). Na ocasião, uma das modelos de Gerda faltara.

A história de Elbe é trazida agora para o cinema por Tom Hooper, cineasta acostumado com toda a vibe do Oscar, tendo no currículo filmes como “O Discurso do Rei” e “Les Miserables”. Podemos analisar “A Garota” por dois prismas, então. 1) Como discussão de gênero, levando em consideração o plano de fundo histórico. 2) Como realização fílmica, mesmo. É uma pena, porém, que o filme não funcione muito bem em nenhuma das duas vertentes.

O roteiro de Lucinda Coxon (que não possuía uma carreira muito expressiva até agora) é baseado no livro escrito por David Ebershoff e omite fatos da vida de Elbe, em especial nos últimos anos de sua vida, e romantiza todo o resto. Até aí nenhum problema, biopics são assim mesmo.

O problema é que peças fundamentais começam a fazer falta, em especial no terceiro ato, e muitos dos eventos descritos na tela soam estranhos ou desconexos. E mais: o texto de Coxon sofre de uma total falta de foco. Ela parece não se decidir sobre quem quer falar, ou talvez tenha faltado habilidade na hora de dosar isso. Ora, o foco é Lili. Ora, é Gerda. Em algum momento, parece que Tom Hooper decidira por sua roteirista por qual linha o seu filme iria seguir.

Ele divide parte de sua força de sua obra nos ombros dos protagonistas. A outra parte cabe ao virtuosismo técnico que é característico nos seus trabalhos. Voltarei nesse virtuosismo mais além, porém a questão AGORA é a linha narrativa escolhida: por fim, temos mais um filme sobre Gerda Wegener do que sobre Lili Elbe.

Veja também: PRODUTORA DE A GAROTA DINAMARQUESA CRIA BOLSA PARA DIRETORES TRANS

Numa determinada sequência, em um diálogo rápido, chegam-se a se referir a Gerda (vivida pela atriz sueca Alicia Vikander) como… uma garota dinamarquesa.  Isso abre um abismo entre Vikander e Redmayne, que dá vida a Lili Elbe. Talvez a personagem de Vikander tenha crescido demais sob o seu desempenho, preterindo a suposta verdadeira protagonista.

Por isso, enquanto Vikander entrega uma atuação marcante e comovente, num papel difícil, delicado e merecedor de prêmios, Eddie Redmayne parece mal dirigido, exagerado e cheio de tiques (a sua forma de mover os olhos em determinados momentos parece o de alguém à beira de um colapso emocional). É bem triste, mas em alguns momentos é doloroso acompanhar Redmayne e ainda não entendi como ele pode estar concorrendo ao Oscar de melhor ator. Aliás, entendo, sim. Vamos a aquela parte do virtuosismo técnico do qual falei acima?

“A Garota Dinamarquesa” é um triunfo plástico. O filme é milimetricamente bem produzido. A fotografia, calcada nos tons que remetem às pinturas de Einar é um estofo de classe para uma moldura luxuosa, que traz um desenho de produção e figurinos belíssimos, tudo muito bem pontuado pela singela trilha sonora de Alexandre Desplat (um dos mais prolíficos compositores da atualidade). Esse cuidado visual de Hooper tem um único propósito: amealhar prêmios.

Nesses casos, o lobby dos produtores de filmes feitos sob medida para o Oscar costuma funcionar, não raro os vemos concorrer ao prêmio numa penca de categorias. Em algumas delas, sem mérito. É o caso de Redmayne esse ano.  Para Hooper, isso já funcionou muito bem. Em 2010 “O Discurso do Rei”, venceu o infinitamente superior “A Rede Social” no Oscar de melhor filme. No entanto, esse academicismo de Hooper resvala em resultados frios e invariavelmente manipuladores, mas muito bonitos.

“A Garota Dinamarquesa” é justamente isso: um filme lindo de morrer. Bem produzido, cada centavo do orçamento se faz ser visto. Entretanto, capenga em muitos outros aspectos.  A ausência de alma, o excesso de maneirismos e alguma desonestidade são capazes de o sabotar, transformando o filme numa grande e inacreditável decepção. Aliás, nem tanto. Vindo de Tom Hooper, isso não é exatamente uma novidade.

COTAÇÃO: REGULAR

  • The Danish Girl, Reino Unido/EUA, 2015
  • Com: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Amber Heard, Ben Whishaw, Matthias Schoenaerts, Sebastian Koch
  • Dir: Tom Hooper – Duração: 119 minutos.

BG Raphael Travassos

Related Posts

Comentários

Comentário