Entra ano, sai ano e o Oscar permanece o mesmo. Entre os seus indicados, é possível ver os mesmos filmes concorrendo em suas categorias. Há o filme “de arte”. Tem o papa-Oscar. Tem também aquela superprodução barulhenta. Os ingleses são figurinhas certas e o cinema indie raramente falta.

Dificilmente há grandes surpresas. Em 2016 (representando essa última categoria de postulantes ao maior prêmio do cinema) temos “O Quarto de Jack”, que só agora chega aos nossos cinemas, depois de metade dos cinéfilos brasileiros o terem conferido nessa grande internet de meu Deus. Porém, felizmente, “O Quarto de Jack” transcende os cacoetes do cinema independente e se revela um dos melhores – e mais dolorosos – filmes da temporada.

Jack é um garotinho que nunca viu a rua. Nunca brincou com amiguinhos ou frequentou a escola. Jack não conhece sequer o quintal. Jack nasceu e vive confinado num cubículo, num quarto. Aquele lugar é o seu mundo. Jack vive nele com a sua mãe, Joy. Ela fora sequestrada e é mantida cativa ali há anos. E vamos parar por aqui. Revelar mais pode estragar o impacto que essa pequena pérola pode provocar, isso se você for uma das 12 pessoas que ainda não viram esse filme.

Essa trama, trágica e absurdamente real, é narrada do ponto de vista do pequeno Jack e essa é uma decisão que não poderia ser mais acertada. Junto com ele assistimos, com um aperto no peito que parece não sair nunca, o cotidiano confinado daquelas duas figuras. Mas Jack não se importa. Aquela é a realidade que ele conhece e isso permite que enxerguemos tudo com um olhar menos traumatizado, mas não menos incômodo, uma vez que Joy está sempre lá nos lembrando daquela terrível realidade.

Esse mérito pode ser facilmente dividido entre elenco e direção. Jacob Tremblay (Jack) e Brie Larson (Joy) criam uma empatia mútua imediata. É impossível não acreditarmos de que se trata de mãe e filho ali. Ambos entregam atuações irretocáveis, cabendo a Tremblay o título de maior surpresa. Isso porque, enquanto Larson nos entrega (conscientemente) uma Joy sofrida, repleta de olhares tristes, mas nunca resignados (e que vê no filho um motivo para continuar vivendo) Tremblay, um garotinho de 9 anos, que na época das filmagens deveria ter mais de 7, arrebata todos simplesmente… por ser uma criança. Vemos uma criança atuar como tal e não como nós (adultos) imaginamos que seja uma (dotada de uma racionalidade que não existe nos pequenos). Palmas para Lenny Abrahamson e a sua direção sagaz e segura.

“O Quarto de Jack” tem um probleminha, entretanto. Nada que prejudique a qualidade do resultado final, mas que deve ser comentado. O roteiro (de Emma Donoghue, autora do livro que deu origem ao filme) divide a obra em dois atos distintos. Do primeiro para o segundo há uma ruptura (narrada por Abrahamson de forma inteligente e impactante). É nesse segundo momento que o filme cai um pouco. Um pouco. Não por ele ser ruim, mas sim, pelo simples fato de que o que fora apresentado antes é de uma competência que jamais seria superada.

Nesse segundo ato (se você for uma daquelas 12 pessoas que ainda não viram o filme pare de ler esse texto aqui e pule logo para o último parágrafo) vemos Jack e Joy (não consigo deixar de ressaltar a ironia contida no nome da protagonista) salvos e se recuperando do lado de fora. Alguns personagens entram e acabam diluindo – um pouco – a dinâmica intimista criada até então. Mais tarde, outros saem de cena sem muita explicação, deixando algumas pontas soltas.

É importante, porém, destacar que o segundo ato é importantíssimo para a evolução da narrativa. Vemos duas pessoas privadas de suas liberdades de forma atroz e o impacto que isso provoca em suas vidas é revelado depois. É como se vivessem (principalmente Joy) em suspensão, e a realidade fora-quarto a fizesse despertar do choque. Esse despertar é a força motriz dos momentos finais do longa.

Por fim, pode-se dizer que o filme de Lenny Abrahamson transcende o cinema indie. Ele não usa os maneirismos do subgênero (que eu amo, não me leve a mal) como uma mera assinatura imagética. Há o que se dizer e o que se sentir, principalmente. “O Quarto de Jack” é um filme, acima de tudo, sensorial. Nele, sentimos medo e ansiedade. Adentramos aquele mundo aterrador e sombrio por um par de horas. Desolados, percebemos que monstruosidades dessa natureza podem acontecer na porta do lado. O alento, todavia, é que vemos tudo isso através dos doces olhos de uma criança.

COTAÇÃO: EXCELENTE

  • Room (Canadá/Irlanda do Norte, 2015)
  • Com: Brie Larson, Jacob Tremblay, Joan Allen
  • Dir: Lenny Abrahamson
  • Duração: 117 minutos

BG Raphael Travassos

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