A jornalista Gabriela Kimura, do M de Mulher, resolveu ser pedagógica e elaborou uma lista muito interessante pra quem sempre vê os debates feministas e fica meio perdido em meio a tantas palavras e expressão não tão usuais no dia-a-dia – mesmo com tanta problematização, aliás, é com essa palavra que ela apresenta o Glossário da Problematização.

Problematização/problematizar

É o ato de questionar a sociedade em que vivemos, as expressões que usamos, a forma como falamos sobre determinados assuntos. É discutir para entender se algo é “politicamente correto” ou se fere a dignidade de uma pessoa (ou uma instituição). Ex: por que usar a expressão “dia de branco” se ela é racista (e remonta aos tempos da escravidão)?

Patriarcado

É o sistema social baseado no controle dos homens sob as mulheres, no qual eles ocupam uma posição central e de poder, contando com solidariedade entre seus iguais e relações hierárquicas que excluem as mulheres. Não inclui espaço de participação feminina em nenhuma esfera – política, econômica e social -, além das ramificações como cultura do estupro, erotização da mulher, maternidade e heterossexualidade compulsórias.

Body-shaming

O termo em inglês significa literalmente vergonha do corpo, mas seu sentido é um pouco mais amplo. É fazer com que as pessoas sintam-se envergonhadas do corpo que têm, sendo inclusive humilhadas por isso. A gordofobia é uma forma de body-shaming.

Slut-shaming

Também sem tradução para o português, o slut-shaming é um movimento opressivo no qual se humilha e diminui uma mulher por sua vida sexual. Xingar uma mulher de vadia, vagabunda, puta, vaca, piranha, galinha, dizer que a roupa é “curta demais” ou “de periguete” e qualquer outra forma que tenha a ver com as atividades sexuais dela configuram slut-shaming. Esse tipo de comportamento é uma das “justificativas” absurdas da cultura de estupro: em algum momento você já ouviu pessoas dizendo que “ela estava pedindo” por causa da roupa, porque já fez sexo com muita gente e outras baboseiras do tipo.Sugestão: ver também os termos cultura do estupro e culpabilização da vítima.

Manspreading

Pode ser traduzido como “homens se esparramando”. Sabe quando você está no metrô e tem algum indivíduo com as pernas bem abertas, impedindo que as pessoas passem sem esbarrar nele, não consigam sentar devido a “falta de espaço”?

Representatividade

Significa ter um grupo – como negr@s, mulheres, LGBT’s – representado em mídias, na política, em empresas e na sociedade como um todo. É quando as marcas produzem bonecas negras com cabelo afro; quando mulheres ocupam os principais cargos de gerência e diretoria em empresas; quando a população negra faz parte da parcela de universitários do país.

Apropriação cultural

De maneira bem resumida, apropriação cultural é quando uma classe dominante e opressora utiliza a cultura da classe oprimida. Apesar de ser um termo complexo, controverso e difícil de delimitar exatamente, é considerada apropriação o uso de turbantes e tranças afro por exemplo, pois são símbolos tanto religiosos quanto de resistência para a cultura negra.

Sororidade

É a irmandade e solidariedade entre mulheres. Em uma sociedade que estimula a competição entre elas, a sororidade vai na contramão desse conceito.#juntassomosmaisfortes

Feminismo

É o movimento que luta por igualdade social, política e econômica dos gêneros. Diferente do machismo, o feminismo busca condições de igualdade para ambos os sexos, não a superioridade entre um e outro. Dentro do movimento feminista podemos ainda encontrar algumas vertentes, chamado deinterseccionalidade:

  • Feminismo branco

Parte do movimento que engloba as discussões relativas às mulheres brancas. Isso significa que para esse grupo a experiência do machismo impacta de forma diferente do que para uma mulher negra e pobre, por exemplo. Assim como as reivindicações do feminismo LGBT são outras, além da base do feminismo como um todo.

  • Feminismo radical x liberal

Em qualquer movimento político e social sempre haverá aquel@s que são radicais quanto quem se considere liberais. Existem muitas diferenças entre os essas vertentes, como na visão sobre a questão de gênero: para as radicais isso é uma opressão por si só, mas as liberais são reformistas – isso quer dizer que elas não necessariamente rejeitam padrões de beleza, aceitam a participação de homens no movimento e também da regulamentação da prostituição, ao contrário das radicais.

Feminismo interseccional

O ponto de encontro entre dois fatores: é a união do movimento feminista com outro movimento como o LGBT e o negro por exemplo.

Empoderamento

É não se deixar oprimir, não abaixar a cabeça para o machismo de todos os dias, lutar para ter o seu poder de volta. Objetivamente quer dizer que é uma ação coletiva de conscientização e inclusão social em esferas privilegiadas.

Gaslighting

O termo surgiu do filme Gaslight (1944) e é quando um(a) parceiro(a) constantemente questiona sua sanidade mental – normalmente te chamando de “louca”. Isso acontece geralmente em relacionamentos amorosos abusivos.

Heteronormatividade

A heterossexualidade compulsória tem como consequência a heternormatividade, na qual tudo que não se encaixe nesse “padrão” seja considerado errado, impróprio, impuro, sujo, imoral ou até mesmo invisível. É pensar somente na caixinha do “homem com mulher”, “atitudes de macho”, “coisas de mulher”.

Cis/Trans/Não-binária

Apesar de estar em constante discussão a questão de gêneros e sua identificação como tal, as separações são entre cis (pessoas que se identificam com o sexo biológico), trans (pessoas que não se identificam com o sexo biológico) e não-binarismo (pessoas que não se identificam com nenhum dos gêneros).

Leia também: “Antes, ser mulher era sequer uma possibilidade. Hoje, é poder ser livre”

Culpabilização

É jogar toda a culpa em cima da vítima, ou seja, da mulher. Ser estuprada é culpa da roupa curta (não do agressor), estar em um relacionamento abusivo é uma escolha e paciência (não da pessoa que é abusiva), andar com o cabelo crespo é contra “os padrões” (e não racismo).

Leia também: Por que precisamos do feminismo? Para viajar sozinhas

Cultura do estupro

Dados assustadores sobre a violência contra a mulher mostram como o estupro é normalizado e enraizado na nossa sociedade. Ocorre a culpabilização da vítima, a crença de que esse tipo de abuso sexual só ocorre em becos escuros e com desconhecidos – quando, na verdade, 80% dos casos ocorrem dentro de casa e com parentes -, a erotização da mulher, principalmente a negra, e a geral romantização de algo que é um crime violento.

Desconstrução

Ao lado da problematização o ato de desconstruir é repensar e desmistificar construções sociais impostas. Privilégios, preconceitos e opressões que podem parecer verdades absolutas, mas não são. O politicamente correto pode até parecer “chato” para você – só que ele é essencialmente a desconstrução de tudo isso.

Equidade

É o termo que sugere a igualdade dentro das desigualdades. Isso quer dizer que não só as pessoas seriam tratadas como “iguais”, mas respeitando as individualidades de cada um. Dentro do Direito essa é a forma de tratar corretamente caso a caso, aplicando-se o valor universal “ajustado”.

Feminicídio

Nome que se dá aos homicídios de mulheres com motivação de gênero.

Protagonismo (lugar de fala)

Em qualquer coisa na vida há quem protagonize determinada ação ou momento e no feminismo não poderia ser diferente. Mulheres são as protagonistas desse movimento e o feminismo é o nosso lugar de fala. Quando se diz que alguém “roubou o protagonismo” é porque esse alguém está tirando a voz de quem deve ser ouvido, bem como “bom protagonismo”, quando se usa privilégios e posições de poder para difundir o movimento.

Misoginia x misandria

O misógino é aquele que tem ódio das mulheres, provando isso em seus atos e discurso. É um sentimento de repulsa e/ou aversão. Sobre a misandria há uma discussão se, de fato, pode-se dizer que uma mulher seja “misândrica” ou se ela só está reagindo aos constantes assédios sofridos na vida toda, todos dias. A Anne Dourado, do Blogueiras Negras, discute sobre essa questão aqui.

Reprodução do machismo

A grande verdade é que o feminismo não considera uma mulher “machista” esim como uma “reprodutora” de machismo. No sistema opressor as atitudes machistas são a forma de controle do homem sob a mulher, não tendo ela a mesma “arma” que ele. O que acontece é que muitas mulheres escolhem usar os discursos para serem aceitas nesse meio, como fazer slut-shaming, não praticar a sororidade e se empoderar junto a outras mulheres.

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