Durante algum tempo, o artista paulista André Martins observou a quantidade de projetos que apresentavam a nudez como gatilho de manutenção para os aspectos e modelos de corpos padronizados, e resolveu investigar este movimento e propor novas discussões.

Dessas indagações, o ator convidou algumas pessoas para um projeto um tanto quanto ousado, o Feminices. “Foram retratadas 100 pessoas, entre elas homens e mulheres, cis e trans, héteros homos bis, não-binários, brancos, negros, orientais, entre outras características, em um tentativa de desenhar a pluralidade”, explica André.

Para não influenciar nos ensaios, André diz ter lançado algumas palavras e os retratados que escolheram como gostaria de expor suas Feminices, e a fluidez entre os gêneros aconteceu de maneiras variadas. “Para alguns era apenas uma fantasia ou uma brincadeira, para outros era uma dor escancarada”.

O ator, que não é fotógrafo, enfatiza que usa da arte e da imagem para criar “ruídos”. “Vivemos em um tempo cada vez mais imagético de frases curtas e sintéticas. Este não é um projeto de fotografias, mas que as contem e necessita da palavra para redimensiona-lo”.

Sobre as questões de ruptura dos conceitos construídos socialmente entre masculino e feminino, André afirma que o projeto pretende servir de diálogo sobre  “os incômodos, os confortos, as empatias sobre estes retratos. Se você odeia o que está sendo mostrado aqui, é necessário que você verbalize e que consigamos falar sobre isto. E é nesta conversa que a proposta desta desconstrução pode acontecer.”

Questionado sobre a forma como os modelos posam para as lentes (fazendo referência ao modelo “objeto” comumente visto nos ensaios femininos), André explica que, como pouco influenciou na postura de cada modelo, acredita que exista uma “educação” sobre o que deve-se mostrar em fotos.

“Em ensaios temos que mostrar sempre o nosso “melhor”. E ele sempre vem atrelado ao higienizado, objetificado, sexualizado. Temos que encontrar novas flexões para estes “modelos”, mas antes é necessário identificarmos isto tudo. Este projeto tem esta tentativa, usando como partida por vezes esta imagem da mulher vendida publicitariamente”.

O Feminices é lançado semanalmente na fanpage pelo Facebook, e André já tem planos para o projeto. “Eu dou print em tudo o que se fala a partir dos projetos. Sempre soube que é um tema muito custoso, a opressão é cruel. Então o meu intuito no final é lançar algo com estas fotos e estes comentários.”

“O que mais me interessa é no outro que se comunica muitas vezes de maneira truncada, ou cheio de ódio. É nele que se revela a questão. Ou porque ele é o oprimido explicitamente ou ele colabora neste processo de opressão. Então é nestas linhas que me interessa intervir.”

O projeto já ganhou algumas exposições, mas André pretende permanecer, por enquanto, no ambiente virtual. “Ainda sinto elas [as exposições] muito egoicas e elitizadas. Se for feita será porque senti que ela pode intervir em uma maior divulgação do tema. Mas ainda me atrai mais viver nestas virtualidades, nas punhetas de cada um, e depois de registrar tudo isto, devolver este material de uma maneira mais acessível a diferentes públicos”.

Confira um pouco do trabalho de André Martins, no Feminices:

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