A  quadrilha que apostou na diversidade aconteceu no Cabo de Santo Agostinho, na Região Metropolitana do Recife. Durante a apresentação da Tradição, do Morro da Conceição (da Zona Norte), o momento mais importante, o casamento, foi palco para uma linda cena, o beijo de um casal gay.

A afeto do casal foi bem aceito pela diretoria e dançarinos e surpreendeu a plateia do Festival de Quadrilhas Juninas da Globo Nordeste. A ideia começou quando os tipos de beijo foram escolhidos como tema. “Fui chamado para fazer o enredo e, durante as pesquisas, vi que como o beijo é universal, até padre beija mão dos fiéis, e pensei: será que só heteros têm direito a beijar? Como é um assunto pesado, tratei tudo de uma forma poética, sem ser vulgar, para passar essa imagem de que pessoas do mesmo sexo também podem se amar”, explicou o dramaturgo e diretor teatral Anderson Abreu ao G1.

A quadrilha contou a história de Severino “Boca Virgem”, filho de mãe protestante e coronel “brabo”, que com a família em uma cidade de interior cuja igreja queria arrecadar dinheiro para uma reforma, e o padre inventou a barraca do beijo. Como já corriam rumores que Severino era homossexual, a mãe disse que o primeiro bilhete seria do filho, que acabou sendo premiado: ele poderia experimentar todos os tipos de beijo.

Nessa viagem, o rapaz não se encantou por ninguém, mas sua mãe, preocupada com o que os outros iriam falar, resolveu que ele teria de sair casado até o final da festa. Duas mulheres entram em uma batalha de danças para impressionar o rapaz, que até escolhe uma delas, mas quando chegou a hora do casamento, entra em cena o vendedor de flores Frederico, por quem Severino estava intimamente encantado.

Nessa hora, as luzes se apagam e uma juíza pergunta se o noivo estava pronto para selar o matrimônio com Frederico, virando a história. Pai, mãe e padre foram contrários e ameaçaram Severino de morte. A cena congela e aparecem sombrinhas com interrogações. “Fizemos isso para instigar o público e a comissão julgadora a se questionarem sobre o que seria o correto. Agressão aos homossexuais como vemos nas escolas, ruas e praças? Então, mostramos que essa história pode ter um final diferente, e a família aceita a relação do filho com outro homem”, conta Anderson.

O ator que interpretou Severino, Rodrigo Motta, também encontrou resistência da família por sua orientação sexual. “Foi um choque para minha mãe quando disse que era gay, mas ela aceitou logo, porque é cabeça aberta, convivia já com a quadrilha. Mas meu pai, que é protestante, ainda acha que isso é coisa do demônio. Ainda bem que na rua, nunca foram agressivos comigo, só escuto gracinha vez ou outra”, falou ao G1. 

beijo gay

Rodrigo e Augusto toparam desafio. (Foto: Luna Markman/ G1)

Rodrigo e Augusto Neves, o Frederico da quadrilha, contam que levaram um susto quando foram convidados para os papéis. “Foi uma surpresa, pois geralmente o casamento é aquele tradicional, homem e mulher, e vieram com essa proposta nova. Pensei: ‘seja o que Deus quiser’. Sabia que uns iriam gostar, outros não, mas também sabia que o público que gosta de quadrilha não tem preconceito. Então, fiquei satisfeito de encarar esse projeto”, comentou. Augusto também é homossexual, mas relata que sempre contou com apoio da família.

Apoio foi a palavra-chave para a Tradição ir em frente com a ideia do beijo gay. “Temos 120 pessoas, entre dançarinos e personagens do casamento, e a maioria dos homens é homossexual, então todo mundo ficou satisfeito com a proposta deste ano. Nunca soubemos de beijo gay em quadrilha nenhuma do Brasil”, disse Tádzio Estevam, diretor de comunicação da quadrilha e dançarino.

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