Pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) estudaram a homofobia presente nas famílias de pessoas LGBTs, e observaram que 83,3% dos participantes da pesquisa acham que a família não os aprova e 59,5% conhecem alguém que foi expulso de casa por homofobia.

De acordo com a Diretora de Políticas LGBT da UFPE, Luciana Vieira, a comunidade LGBT, além das diversas violências sociais, enfrenta a homofobia intrafamiliar. “Os gays têm muitos problemas familiares, chegando ao extremo de serem expulsos de casa. O grande desafio de todos eles é o espaço da família”, afirma.

A pesquisadora explica os motivos que leva a esse problema. “Normalmente, a casa é o pior lugar para se assumir. Existe um conflito de gerações, pois a sociedade foi construída com valores que não permitem a homossexualidade e que por muito tempo vigorou sem ser questionada”, analisou.

Antropólogo e fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB), Luiz Mott, 70 anos, sabe bem o que passam os LGBTs que não recebem apoio da família. “A mais grave discriminação é a do ambiente familiar. A família forma o posicionamento da pessoa diante da sociedade e quando um jovem não tem esse apoio pode ter diversos problemas”, atestou.

Nos últimos 20 anos, aponta, cinco gays foram assassinados pelos próprios pais no Brasil. “Muitos reprimem porque têm medo que os filhos sofram, mas eles precisam dar apoio para que os filhos possam viver bem.” Segundo levantamentos do GGB, um LGBT é morto a cada 27h no Brasil, o que torna o País o líder neste tipo de crime. Em 2015, 319 foram assassinados.

Apoio

Motivados pela tristeza de um amigo ao ser expulso de casa por assumir sua orientação sexual, alunos da UFPE desenvolveram um site que aproxima as vítimas daqueles que podem ajudar. A plataforma “Mona Migs” (www.monamigs.co) permite o cadastro de quem quer acolher aqueles que são expulsos do lar. “Acredito que a família é a instituição que depositamos mais confiança e quando somos rejeitados por isto, ficamos extremamente abalados. Com o site, mostramos que existem pessoas que se preocupam com eles e isso traz uma nova visão para a vida”, afirmou o aluno de Design Pedro Magalhães, um dos oito desenvolvedores da plataforma.

Antes de colocar o site no ar, os alunos fizeram uma pesquisa que revelou ainda que 59,8% dos LGBTs não são assumidos em casa. Desde maio o Mona Migs já recebeu o cadastro de mais de 800 acolhedores e já ajudou 10 pessoas no Brasil inteiro. Ago­ra, os jovens, estão com uma campanha no site www.catarse.me/monamigs para arrecadar R$ 20 mil para melhorias e expansão na plataforma.

O enorme amor de um pai

O infortúnio da reprovação por parte daquela que o gerou poderia ter posto fim aos sonhos do jovem Victor Hugo Bione, não fosse, nas palavras do próprio garoto, o “enorme” amor do pai. Depois do afastamento materno, Victor foi acolhido na casa de amigos.

O pai morava fora do Recife, mas não ficou um dia sequer sem o apoio dele. No início deste ano, o pai voltou para a Capital e concluiu o processo de personificação da palavra “família”. O provedor deste núcleo familiar atende por Coronel Bione, um policial militar aposentado.

Quando Victor saiu da casa da mãe aos 13 anos, Flávio Bione viajava pelo País a trabalho. “Eu não queria sair do Recife. Teria de deixar meus amigos. Mesmo assim, ele vinha constantemente e não me deixava um dia sem um telefonema carinhoso”, comentou o rapaz.

Victor relata que passou momentos difíceis. E que o amor do pai foi fundamental nesses momentos. “Ele me apoiou. No dia em que me assumi, enviou uma mensagem linda dizendo que estaria do meu lado. E cumpriu o que prometeu”. Hoje, com 16 anos, Victor mora com o pai, a madrasta e o irmão de dois meses. “Conversamos sobre tudo. Ele conheceu todos os meus namorados. Me aconselha e me dá força.”

Para o Coronel, o que faz pelo filho é natural. Em suas palavras, não faz mais que sua obrigação de pai. “Nunca vi um bicho nessa história. Sou pai e quero ver meu filho feliz. A homossexualidade é uma realidade e só os bobos não aceitam”, disse. Para ele, as pessoas ligam muito sua profissão à truculência. Foi diretor da Penitenciária Barreto Campelo, em Itamaracá. E afirmou saber que muita gente brincou com a história da sua família.

Mas sua grande preocupação foi uma só: ter um filho digno. “Sempre fui duro com a lei e sou duro como pai. Mostro a realidade a ele. Mas não faz sentido querer interferir nas pessoas que ele ama. Toda noite vou ao quarto dele conversar, sobre tudo.”

Para o Coronel, a sociedade é hipócrita. “Se preocupa com a família tradicional, mas a verdade é que os gays estão em todos os lugares e precisam ser respeitados como qualquer pessoa.”

Via: FolhaPE

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