Eu talvez não tenha sido sincero contigo – nem comigo. Eu nem sempre sou sorrisos, nem sempre tenho planos, nem sempre sou amigo – meu amigo. Então, é chegada a hora da morte.

É, resolvi desligar os aparelhos, eutanasiar a mim. Será possível?

A lei não me interessa e talvez nem eu tenha interessado a ela. Então!

Eles deveriam me proteger, te proteger. Mas não, criam espetáculos, armam as tendas e distorcem debates importantes que poderiam ter me mantido vivo. Terá sido um circo?

A igreja não me representa. O religioso que de ti abusou minha alma também despiu.

A política não me representa. Eles se dizem defensores da boa e velha família tradicional brasileira. Será ela: o pai, a (o) amante, a mãe e os filhos? Quanta hipocrisia. Poderiam ter me mantido vivo.

A escola não me representa. O bullying diário levou sonhos de criança e tornou infernal as noites de sono. Prazer maior seria ter desistido e eu ainda estaria vivo.

A faculdade não me representa. O grupo de gênero finge ser aliado de nossas questões mas não fazemos parte da elite que o compõe. O professor que sugere propostas indecentes te cala, o segurança que te aborda por te ver beijando, te amordaça. E você tenta seguir por esse caminho que insiste em te punir. Essa é a jornada e que por muitos de vida é chamada. Nossa, que lindo!

O trabalho não me representa. Só me sustenta.

Os amigos não me representam. Todos me querem por perto, mas me apresentar à família, ah, isso eu duvido.

Desistir é pra mim um alívio. E não me entenda errado, ou me entenda, como queira, eu apenas desisto. Desisto dos remédios. Estou farto das pílulas diárias que me fazem acreditar na humanidade por completo. Cansado do conta-gotas que não surte efeito. E a injeção de ânimo? Ah, essa é a razão da minha morte. Tentei, eu por completo sei que tentei. Tentei me adequar, ser o “apenas mais um na multidão”, ser “normal”. Eu tentei! E nessas tentativas eu errei. E como errei. Mas eu era criança, antes amada por meus pais e hoje julgado por todos. Ano após ano eu fui cansando. E cansei.

Enxerguei na morte de quem sou hoje a possibilidade de uma vida melhor. Me despir dos medos de outrora, matar as inseguranças do passado e lutar. Estou morrendo para viver.Mato o antigo eu um pouco a cada dia. Talvez matando-o aos poucos eu adquira uma força maior para seguir.

E aqui estou eu em mais um dia de morte – sem novidades. Os aparelhos estão sendo desligados, a família ao meu redor e um silêncio absoluto. Em pensamento eu suplico: Alguém grita: EU TE AMO?! – Talvez a essa parte eu deixasse vivo.Não, vejo que estou só em meu mundo. As luzes começam a apagar, minhas pálpebras ficam pesadas, minha respiração já falha. Ao lado da cama eu me vejo. Forte, olhar altivo.

O Eu vivo se aproxima da cama e me agradece. Achei tão lindo!

“Você foi guerreiro e lutou até onde pôde, meu amigo. Estivemos juntos nessa caminhada e sei o quanto sofreu, o quanto doeu. Você tão novo me tornou o homem que sou hoje. Sei que está cansado e preciso seguir o destino.”

Beijou minha testa e soube naquele momento o quanto fui necessário em sua construção. O tornei um guerreiro maior apenas com a minha injeção – de ânimo diário.

Aqui encerro meu ciclo, amigo. Parto agora para me juntar aos milhares que estão com hora marcada. É chegada a hora do alívio. Estaremos ligados eternamente pelas memórias. Distante te observarei e pretendo usar a lâmpada que atingiu teu rosto para te iluminar e teu caminho guiar.

Que cada letra de nossa sigla (LGBT) se una como família e, política, escola, faculdade, trabalho e amigos sirvam pra te fortalecer e te conceder um respiro. Construa e seja amor por onde passar.

Obrigado por me ter feito parte de te. Sigo agora meu caminho para te manter vivo. É esse o meu destino!

Páginas brancas carregadas em sua totalidade pela junção das cores do arco-íris, receberão seu novo caminho.

Boa sorte, amigo!

BG CEPHAS CASTRO

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