Que quem conta a história não são os sujeitos dela, a gente já sabe, e que quem conta a história escolhe o lado a contar também já é de conhecimento geral, e que a história geralmente só narra a versão do ganhador é outro consenso, no entanto e portanto, nada mais justo do que procurar os outros personagens e as outras versões e conhecer a nossa história.

Durante o cenário de censura, vigilância, polarização política, e perseguição oficial do Estado ditatorial no Brasil, onde estavam a população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais? O que eles passaram, o que tiveram de fazer para sobreviver? Alguns não sobreviveram, e tudo isso nós precisamos saber.

A história LGBT está começando a ser desnudada e revelada, mas carece ainda de muita pesquisa para encontrarmos a nossa participação e denunciarmos as violações que sofremos, como foi o caso de Herber Daniel, do Colinas (Comando de Libertação Nacional), organização à qual também pertenceu também a presidenta Dilma Rousseff.

Segundo o historiador Renan Quinalha, por mais que a repressão na época fosse motivada por questões políticas, principalmente ao anticomunismo, a homossexualidade sempre recebeu uma espécie de repressão específica dos órgãos do estado. “Era como se a homossexualidade fosse um instrumento que a subversão utilizava para atacar os valores morais e da família tradicional”, explicou.

O governo autoritário da Ditadura tinha um ideal de povo e de corpo são. Para isso, pôs em curso, um processo de higienização e caça à homossexuais, travestis, transexuais, e todo e qualquer desviante sexo-gênero, e “degenerados”. Amparados por uma ideologia cristã de família e moral, os governos municipais e estaduais realizaram uma verdadeira caça à homossexuais e travestis no Brasil, como nos conta o relatório da Comissão Nacional da Verdade – CNV , em capítulo destinado à violência contra a população LGBT.

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A “limpeza”

O processo de limpeza e higienização era feito através de “rondões”, nas palavras do relatório da CNV. Em maio de 1980, durante o governo de Paulo Maluf, o delegado José Wilson Richetti assumiu a delegacia seccional do Centro e criou a Operação Cidade, que tinha como objetivo prender traficantes e assaltantes.

No dia seguinte, no entanto, os jornais estampavam que a maioria das 152 prisões feitas na operação foram de prostitutas, travestis e homossexuais. Em 31 de maio neste mesmo ano, a Secretaria de Segurança Pública do governo Maluf soltou uma nota oficial assumindo a perseguição aos LGBTs, na qual dizia, segundo Freitas: “O delegado de polícia é o comandante e chefe de uma guerra sem quartel em toda área central da cidade. Não esperando as queixas que um cidadão possa apresentar, vai aos locais suspeitos para conduzir a qualquer um dos outros distritos da região central o rufião, o travesti, o traficante de tóxicos, o assaltante, o trombada e a prostituta que realiza seu comércio nas vias públicas.”

A imprensa teve papel fundamental para proliferar o medo e enfatizar as abominações da polícia repressora. Em 1º de abril de 1980, O Estado de São Paulo publicou matéria intitulada “Polícia já tem plano conjunto contra travestis”, no qual registra a proposta das polícias civil e militar de “tirar os(sic) travestis das ruas de bairros estritamente residenciais; reforçar a Delegacia de Vadiagem do DEIC para aplicar o artigo 59 da Lei de Contravenções Penais; destinar um prédio para recolher somente homossexuais; e abrir uma parte da cidade para fixá-los são alguns pontos do plano elaborado para combater de imediato os travestis, em São Paulo”. (Relatório CNV, pg. 297).

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Ex-chacrete Weluma Brum.

A chacrete Weluma Brum, travesti e negra, relata que em um de suas experiências com a polícia foi parada enquanto se prostituía na Central do Brasil e foi obrigada a fazer sexo oral nos policiais para não ser presa. Isso depois de apanhar de outros quatro oficiais que lhe batiam e davam choques.

E mais tarde descobriu uma estratégia comum entre as travestis para evitar as prisões arbitrárias, “Nós nos cortávamos com gilete, para que os policias não nos prendessem, vejam aqui, tenho ainda cicatrizes. Eles tinham medo que a gente se cortasse”. Este medo, é claro, advinha do estigma de serem soropositivas, afinal, é neste período que a AIDS é considerada “o câncer gay”.lampiao

Outro importante aspecto do depoimento de Weluma, e muito bem abordada pelo jornalista Fernanda Dantas da Revista Fórum, era que as travestis nem mesmo sabiam que eram travestis, pois nesse período, como nos relata o texto final da CNV, a perseguição também se dava em forma de invisibilidade, pois a censura impedia que o tema fosse comentado nos meios de comunicação.

O jornal “O Lampião da esquina” (que agora em 2016 ganhará um documentário dirigido pela cineasta Lívia Perez), destinava-se ao público homossexual, é um exemplo, foi combatido amplamente pela censura, porém resistiu.

Sem dados

Não havia parâmetro de identificação com outros sujeitos como eles, além dos discursos religiosos que pregavam o pecado. Outro item que merece e carece de estudo é a taxa de suicídio de jovens durante a Ditadura Militar, entende-se que tenha sido alta, sobretudo entre os jovens LGBTs (termo ausente naquele período, pois não havia a distinção entre orientação sexual e identidade de gênero, como hoje o fazemos. Todos eram chamados de homossexuais, não deixando claro nos registros da ditadura quem foram as travestis presas).

A repressão também atingia o serviço público na época. O então ministro das Relações Exteriores Magalhães Pinto fundou uma comissão de investigação sumária em 1969 que buscava cassar os funcionários do Itamaraty que atentavam “contra a moral e os bons costumes”.

Após as “investigações”, quinze diplomatas foram cassados por diversos motivos, inclusive Vinicius de Moraes, neste caso sob a alegação de alcoolismo. Sete deles foram acusados de pederastia e, dali por diante, o órgão começou a solicitar exames psiquiátricos e proctológicos para identificar se os novos funcionários eram homossexuais ou não. O fato foi relatado pela primeira vez pelo O GLOBO há cinco anos, de acordo com documentos sigilosos do Arquivo Nacional.

Outro aspecto importante é sabermos que durante este período a homossexualidade (então conhecida como “homossexualismo”) era entendida como uma patologia. Muitos gays, lésbicas, travestis e transexuais foram internadas em manicômios como o Manicômio do Juquery, em SP, e o Manicômio de Barbacena, em MG. Alguns dos relatos destas pessoas podem ser conhecidos nos textos da historiadora Maria Clementina, do Departamento de História da Unicamp.

As mulheres lésbicas tiveram um papel importantíssimo de resistência durante a ditadura, com para Cassandra Rios, autora do livro, censurado e proibido em livrarias, “Eudemônia”. Ela foi diversas vezes processada e perseguida não tendo havido ninguém que a defendesse ou se mobilizasse contra a perseguição realizada contra ela.

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A pesquisa para entender onde estávamos

O trabalho de encontrar onde estávamos ao longo da Ditadura apenas começou. Os sujeitos desviantes passam agora, pelo momento de olhar para si, e se perguntar “Onde estávamos?”. O que sabemos hoje, é que a violência contra a comunidade LGBT, se deu em diversos âmbitos, na limitação de suas potências artísticas, na participação política, no trabalho, no exercício da liberdade, no conhecimento de si mesmo. Na patologização (ainda hoje sofrida pelas pessoas trans).

É precisa ampliar o conceito da Ditadura que dominou o Brasil por 21 anos. As vítimas do regime militar não eram somente os militantes da esquerda que levantavam armas ou que se envolveram em atividades contra o regime. O estado de exceção afetou toda a sociedade brasileira. As discussões sobre o período ditatorial precisam ultrapassar os debates e construir políticas públicas para impedir que a repressão possam exercer quaisquer dessas características já vividas no país.

Para conhecer mais sobre a nossa história, o portal Nós2 inicia uma série permanente e semanal para debatermos a história LGBT e seus personagens, no Brasil e no mundo, onde propomos uma grande discussão acerca dos nossos direitos e da visibilidade das pessoas que constroem e construíram com suas vidas as conquistas que temos e que não abriremos mão jamais.

Indicamos o livro dos historiadores Renan Quinalha e James Green: “Ditadura e homossexualidades: Repressão, Resistência e busca da verdade”. E a sessão LGBT do site Memórias da Ditadura, que traça um panorama com o que trouxemos neste texto.

 

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