Eu não julgo o suicida. Não sei da sua dor, e não conseguiria dizer que ‘vai passar’, porque às vezes não passa. Mas eu queria ter ficado ao lado da Karen.  Queria que ela me dissesse que estava doendo. Queria ter percebido que ela não saía de casa por dor da vida.

Que seus olhos haviam perdido o brilho, que sua boca não tinha mais cor, que seu peito não trazia mais amor pelo dia, e que suas noites eram trevas. Queria ter tido mais tempo para lhe dizer que a gente pode fazer pequenas fagulhas de alegria.

Mas seria uma mentira.

Não sei como seria possível trazer esperança para quem já tentara de tudo para mostrar ao mundo que sua tristeza era legítima e que o mundo por si era pesado demais, e não porque ela não tinha forças, mas porque as poucas chances de vencer a fizeram desistir.

Abrir mão não é o caminho mais fácil. Mais azul. Mais cool. É só mais uma opção. Eu não queria tirar dela esse direito de descansar, mas se ao menos eu pudesse mostrá-la que tem gente que não é de plástico. Tem gente que não tem ódio no coração. Tem gente que não repara na bagunça da nossa alma e nos desarranjos das nossas histórias.

Tem gente de bem que tá matando um leão por dia pra não se render, e que brada ao lado de gente que tá no mesmo processo. Tem gente que sangra muito. Pra caramba mesmo, e que vem perdendo a vontade de sair da cama, mas que tem alguém do lado pra ajudar nos dias mais cinzas.

Queria ter sido essa pessoa pra Karen.

E hoje quem a impulsionou a não ser mais, a não estar mais; está vivo e não nota que ela se foi. Mas essas pessoas nunca foram algo ou alguém relevante, nem quis estar perto dela. Só lhe mandavam os julgamentos e conta estava alta demais.

Queria tê-la ajudado a pagar.

Mas depois que se entra no trem, ou que se deita para o fim, surge pessoas interessadas pelo começo e pelo meio. ‘Mas o que aconteceu?’, perguntam como se tivessem realmente interessados, como se não fossem urubus, como se fossem fazer diferente com os outros que estão à beira do limite… Mas eles não vão.

E tanto faz o que fez com ela fosse. Ela foi forte e venceu todas as batalhas com dignidade. Eu a respeito por tudo que ela fez dos seus dias e levo cada vitória dela, comigo. Mas quero ser um amigo melhor, uma pessoa melhor por ela. Que sua odisseia pela vida toque mais pessoas, e que mais pessoas toquem mais pessoas, e que todos juntos possamos criar laços para sobreviver nesse mundo que chamam de real, para pessoas irreais.

Quero ser possibilidade.

*Karen se foi na noite do último dia 7 de setembro, e não deixou nenhuma linha escrita, como se dissesse ‘ninguém merece minhas palavras’.

[A cara dos invisíveis: ensaio sobre-viver]

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