Um dos acontecimentos mais importantes do movimento LGBT no país é o Levante ao Ferro’s Bar, conhecido por ativistas como o ‘Stonewall’ brasileiro, onde as mulheres lésbicas frequentadoras do estabelecimento foram impedidas de vender panfletos de luta e liberdade sexual, durante a Ditadura Militar.

O Ferro’s Bar, localizado no centro da cidade de São Paulo, na rua Martinho Prado, em frente à sinagoga, próximo ao Riviera, outro bar conhecido pela presença de intelectuais, comunistas e artistas. Em 1967 o bar começou a ser ocupado por lésbicas, tornando-se um ponto de encontro e local para discussões.

Em 1979, o Grupo Lésbico-Feminista surgiu quando mulheres do Grupo Somos de Afirmação Homossexual, de São Paulo (primeiro grupo homossexual do Brasil), foram convidadas a redigir uma matéria sobre lésbicas para o jornal Lampião da Esquina, publicação de temática homossexual do Rio de Janeiro que circulou de 1978 a meados de 1981.

Após a publicação dessa matéria, decidiram continuar juntas e formaram o primeiro grupo lésbico brasileiro, cujo coletivo se desfez em meados de 1981. Mas duas remanescentes deste coletivo, resolveram dar continuidade a organização especificamente lésbica e fundaram o Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF).

Ferro’s BarAs ativistas do GALF passaram a produzir o panfleto Chana Com Chana e vendiam no Ferro’s Bar, já que o local era frequentado por mulheres lésbicas e também feministas, e começaram a ser alvo de discriminação do dono do estabelecimento, culminando na proibição da venda do jornal.

Em entrevista para o Homomento, Miriam Martinho, coordenadora do grupo Um Outro Olhar conta como o levante se deu. “A gota d’água foi no dia 23 de julho de 1983, quando o dono do bar, o segurança e o porteiro tentaram nos pôr para fora do Ferro’s, puxando a gente pelo braço, dando empurrões. Nós resistimos, e as mulheres que estavam no bar nos apoiaram. Eles chamaram a polícia que extraordinariamente permitiu que a gente ficasse por lá naquele dia, mas naquela base do só hoje e nunca mais. E fomos proibidas de voltar a vender o boletim lá, embora se vendesse de tudo no bar, inclusive substâncias ilícitas. Só não podia vender publicação de lésbica num bar sustentado por lésbicas.”

No dia 19 de agosto de 1983, lideradas por Rosely Roth do GALF, elas resolveram dar um basta na ordem discriminatória e desafiaram a proibição, forçaram a entrada e leram, em meio a aplausos e assovios, o manifesto sobre os direitos das mulheres lésbicas e contra a repressão que estavam sofrendo. O protesto contou com a presença do então deputado Eduardo Suplicy, a vereadora Irede Cardoso, e de grupos homossexuais e feministas.

Ferro’s Bar

Ferro’s Bar

O levante resultou no pedindo de desculpas do dono do bar e a liberação para a venda dos panfletos.  Depois da revolta, mais mulheres começaram a ocupar o “pedaço” como se dizia. A imprensa cobriu efusivamente, como a Folha de São Paulo e a revista Visão, e com enfoque positivo, coisa inédita no período.

Esse dia não marcou apenas a data da primeira manifestação lésbica brasileira, mas também o inédito apoio de feministas à questão lésbica, bem como uma das primeiras coberturas simpatizantes na grande mídia e ficou conhecido como o Dia do Orgulho Lésbico. O dia 29 de agosto é comemorado o Dia da Visibilidade Lésbica*. A data é uma alusão ao fato de que em 29 de agosto de 1996, foi realizado no Rio de Janeiro o primeiro Seminário Nacional de Lésbicas (Senale), a partir da iniciativa do Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro (COLERJ).

*As duas datas ainda geram conflitos dentro do movimento, cabendo a nós, citar as duas como construção história, sem juízo de valor às suas especificidades.

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