Era uma quarta-feira de cinzas, eu fui convidado por um amigo a sairmos naquela noite que antecedia o fim do carnaval, estava sem grana alguma, mas meu amigo se prontificou a pagar minha bebida se eu me comprometesse com o valor da entrada, e assim foi. Logo no início da festa, que estava sendo embalada pelas músicas do cantor Issac Galvão, vi entrando na festa 3 rapazes, sendo que o que mais me chamou a atenção estava com uma camisa xadrez, azul clara com detalhes em verde e alguns botões abertos. Ele não era alto, musculoso e lisinho, mas sim era meu tipo, baixo com pelos no peito e uma cara de quem tinha um bom papo.

Ficamos meio distantes, e com a chuva que se iniciou ele acabou se mudando para a mesa que ficava nos fundos do bar. Fiquei paquerando com ele a noite inteira, através do espelho do bar, morrendo de medo de chegar para conversar. Já ele também não se aproximava, devido as minhas características europeias, acreditava que eu era “gringo”…

A noite rolou e as cervejas começaram a me desinibir, mas ainda estava na dúvida se estava sendo correspondido, foi quando fui ao banheiro só para poder passar por sua mesa. Sim confirmei, pois ele e seus amigos me olharam da cabeça aos pés. Caramba que vergonha! Logo eu que sou geminiano, e sempre me considerei super desenrolado. Mas a vergonha não deu trégua e eu enrubesci em um segundo.

Após a passagem pela mesa vi que ele estava indo comprar cervejas, na mesma hora fui para fila também, apesar de meu amigo falar, “estamos com as fichas aqui e tu não precisa comprar, pois hoje é por minha conta”! Mas não deu outra, e enquanto João Neto ficava falando eu ia me afastando para dentro do bar, para a fila da cerveja, lembro que nesta hora ele se virou, e falou seu nome: “Me chamo MÁRCIO e você”? E eu o beijei. Beijei e só depois falei que me chamava Sidinei. Não dei tempo para ele me analisar, dei logo outro beijo e o convidei para ir ao meu apartamento que ficava pertinho do novo point LGBT de Natal.

Inicialmente ele não quis e disse que iria embora com seus amigos e que estava dirigindo, e eu o questionando: “Bêbado deste jeito você vai dirigir?”. Mas ele saiu do bar! Seu amigo, Thiago, com todo sotaque nordestino falou para Marcio, após ele contar sobre o convite: “Homi vá simbora pro apartamento do galego!”. Márcio pediu para ele deixar o celular ligado e voltou para festa.

De lá saímos logo após sua volta, mas no caminho fui ouvindo as frases mais improváveis para o primeiro encontro: “Escuta se você for traficante de órgãos já vou lhe avisando! Uso lentes de contato, então minhas córneas não prestam; sou hipertenso e meus rins não devem funcionar direito, por isso nem adianta me deixar em uma banheira de gelo e fugir com eles!”. Eu dava muita risada e falava que queria apenas conhecer ele e não vender seus órgãos, igual a Jack estripador.

Passado este dia, nos encontramos novamente no dia de seu aniversário quando conheci seus amigos, dois dias depois de nossa primeira noite, percebi que os homens nordestinos são determinados. Mas não parou por ai. Foi tudo muito rápido, em uma semana eu estava recebendo um buque de lírios brancos com dois pedidos, sendo o primeiro me pedindo em namoro e o segundo para guardar sua pulseira de couro, que Márcio usava na noite em que nos conhecemos, pois ele estava sendo transferido, pelo seu escritório de advocacia, para a cidade de Sobral, no interior do Ceará. Seria apenas três meses, mas nos encontraríamos uma vez a cada mês. Difícil para um início de namoro, mas com a boa conversa que um bom escritor e trovador têm, me convenceu e aceitei o convite. Enquanto isso, eu ia terminando de escrever minha dissertação de mestrado, e ia planejando como contaria para meus pais que seu único filho estava namorando um homem.

Confesso que não foi fácil a distância e tampouco foi fácil os primeiros meses morando juntos, logo após sua volta do Ceará, quantos conflitos em um apartamento com costumes e culturas diversas, uma pela fala e outro pelo gênio diferente, mas e não é que dá certo unir um geminiano gaúcho com um potiguar de peixes! Sim ambos das ciências humanas, ambos gostamos de ler e de falar muito, mas ainda hoje vivemos algumas complexidades, eu com minha bagunça organizada e ditatorial e ele com sua calma e seu ciúme.

Relacionamento gay

Estamos noivos. Pedi Márcio em noivado no dia em que completamos 4 anos que nos conhecemos. Antes, seguindo a tradição falei com seus pais, dizendo que havia encomendado as alianças e para os meus dizendo que no outro dia pediria Márcio em casamento, para minha surpresa meu pai falou: “Lembre-se que casamento não é fácil, pois são duas pessoas diferentes se unindo em um compromisso e nele deve haver respeito mútuo, siga o meu exemplo e de sua mãe, e se ele aceitar, dê um abraço em Marcio e diga que estamos muito felizes!”.

Relacionamento gayHoje planejamos nos casar, adotar filhos, Márcio quer uma menina e já tem até o nome Izabela! Eu quero um casal, e lá se vai mais uma discussão, pois é!  Vida a dois não é fácil, exige muitas conversas e claro que temos nossas brigas, mas sempre com o respeito e a exigência de nossos direitos legalizados. Quanto a nossa luta pelos direitos LGBTs, a cada dia busco trazer Márcio para dentro da luta por direitos, e defesa das minorias, por enquanto em pequenos grupos, como com meus alunos ou nas rodas de conversa e bate papos que Márcio faz com a divulgação dos seus livros Maldito Sertão e Fome. Também busco discutir e levantar a bandeira LGBT na minha página do Facebook que se chama Gay Descomplicado, ou no meu Instagram @sidischneider, buscando discutir os temas da sexualidade e empoderar os adolescentes LGBTs a sair do armário, que confesso que não é fácil.

E assim seguimos, unindo duas culturas distintas e lutando por ideais cada dia mais em comum.


Sidinei Schneider tem 33 anos, é gaúcho e mora em Natal/RN. Professor de história, mestre em filosofia onde trabalha com a temática da homossexualidade, discutida por Michel Foucault. Militante, discute em sala de aula sobre a necessidade da luta pela garantia de direitos de minoras sociais, principalmente mulheres e LGBTs.

Marcio Benjamin, 36 anos, nasceu e mora em Natal/ RN, trabalha como advogado previdenciário e como hobby escreve livros de terror que trazem a temática do sertão em suas histórias. Escreve peças de teatro voltadas ao humor.

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