José Bernando tem 18 anos e desde pequeno nunca se identificava com as atividades que as pessoas costumavam chamar de “coisas de meninas”. Quando saía para brincar de bermuda e tênis, ouvia o pai conversando com a mãe “Como você deixa a Letícia andar assim? Ela está parecendo um homenzinho”.

Ele conta que sempre preferiu o cabelo curto e adorava esportes, e que quando adolescente disse a mãe que era lésbica, até compreender e se identificar como transgênero. A aceitação dos pais não foi imediata. “Sempre soube que meu filho não era uma menininha, mas escondi isso de mim mesma o quanto pude. Muitos lacinhos, babados e o lindo mundo cor-de-rosa”, conta Norma Coeli, em entrevista à BBC Brasil.

“Na verdade, apenas torturei minha garotinha por anos a fio! Essa é a mais pura verdade”, conta. Em uma publicação em sua página pessoal no Facebook, na quarta-feira (12), ela desabafou sobre como enfrentou o próprio preconceito para aceitar o filho.

O relato, que veio acompanhado de uma foto da carteira de identidade social de José Bernardo rapidamente viralizou nas redes sociais, com milhares de curtidas e compartilhamentos. “Foi libertador para nós dois. Sempre fui seu ombro amigo. Ouvia suas angústias e seus problemas, mas tinha medo do que podia acontecer com ele. Talvez isso explique por que eu custava tanto a aceitar que meu filho era diferente dos outros”, diz.

“Meu ex-marido [Norma separou-se há três anos depois de permanecer quase duas décadas casada] e o irmão dele, mais velho, também o apoiaram bastante. Somos bastante unidos e uma família feliz. Aqui não existe preconceito.”

Ela conta que escreveu o texto sobre o filho para “informar” a família. “A repercussão foi muito maior do que imaginava. Foi um alívio e um susto. Para além das curtidas e compartilhamentos, o mais importante foi que o post me propiciou ter contato com centenas de pessoas que passam por uma situação semelhante”, afirma.

“Há vários Josés Bernardos no Brasil. Infelizmente nem todos são aceitos como eu aceitei meu filho. Fiquei muito comovida ao receber tantos relatos de homossexuais e transgêneros, que me confidenciaram que não têm o apoio da família. Um sofrimento sem fim”, fala.

Em muitos casos, contudo, a não aceitação termina em violência. Segundo dados da ONG Transgender Europe, o Brasil é o país que mais mata travestis e transgêneros no mundo, seguido de México, Colômbia, Venezuela e Honduras.

De 1º de janeiro de 2008 a 31 de dezembro de 2015, foram 802 mortes em todo o território nacional. No mesmo período, 2016 transgêneros foram mortos em 65 países do mundo. “Felizmente, nunca fui agredido, apesar de já ter recebido olhares estranhos na rua e ouvido comentários negativos a meu respeito”, diz José Bernardo à BBC Brasil.

Diante do alto número de casos de violência, uma medida em vigor em alguns Estados brasileiros vem sendo louvada como importante ferramenta de combate ao preconceito. Desde 2014, o Pará é uma das unidades da federação que permite a emissão de identidade social a travestis e transsexuais. Ao todo, foram entregues 270 documentos, principalmente em Belém, segundo o governo.

“Para mim, foi libertador. É como se pudesse responder por alguém que sempre fui”, declara José Bernardo.

Com tanta repercussão positiva, Norma foi surpreendida com a retirada do post do ar dias depois de publicá-lo. Ela chegou a repostá-lo, mas o conteúdo novamente foi apagado. Segundo o Facebook as publicações violaram as regras de comunidade da rede social por causa da foto da carteira de identidade social de José Bernardo, na qual seus detalhes pessoais aparecem visíveis.

Segundo a empresa, nenhum conteúdo é removido “proativamente” e, quando isso ocorre, resulta de uma denúncia, mas acrescentou ainda que os dois posts de Norma seriam republicados, sem a foto.

“Manter a segurança das pessoas é a maior responsabilidade do Facebook e por isso desenvolvemos padrões de comunidade que determinam o que é permitido ou não na nossa plataforma, incluindo a garantia de identidades autênticas e restringindo a publicação de informações pessoais sem consentimento”, informou o Facebook, em comunicado enviado à BBC Brasil.

Norma diz acreditar que a denúncia tenha partido de algum “homofóbico ou transfóbico”. “Infelizmente, ainda há muito preconceito no Brasil. Espero que meu relato não gere tamanha comoção e seja encarado apenas pelo que é: uma mensagem de amor de uma mãe para seu filho”, diz.

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