Não é sempre que Black Mirror tem um final feliz. Na verdade, apenas um episódio quebra este padrão: “San Junipero”.

Sensação imediata nas redes sociais e elogiado pela crítica, o episódio 4 da terceira temporada da série de Charlie Brooker se destaca justamente por não ter um fim catastroficamente depressivo. Ambientado na década de 1980, narra um romance em uma cidade californiana protagonizado por Kelly (Gugu Mbatha-Raw) e Yorkie (Mackenzie Davis), que atravessa o tempo e utiliza os avanços tecnologicos para, enfim, contar uma história que soa esperançosa sob um determinado ângulo.

Para o diretor Owen Harris, que comandou não apenas este mas também “Be Right Back”, primeiro da segunda temporada, a desconfiança do público frente a um final alegre é totalmente compreensível. Em entrevista ao The Hollywood Reporter, ele comentou:

“O que é legal sobre Black Mirror é que no final, eles sempre subvertem tudo de uma forma. Eles sempre te dão um olhar um pouquinho diferente a respeito de tudo. Mesmo quando você tem essa sensação animadora, otimista, por baixo da superfície sempre há uma outra visão à espreita, em termos de decisões que existem para ser tomadas. E [San Junipero] levanta as perguntas: O que você faria? Você escolheria San Junipero? Ele funciona em diferentes níveis.”

O que significa que, mesmo com um final otimista, “San Junipero” guarda algumas reflexões, e pode sim ser pensado sob uma perspectiva diferente:

“Acho que é agridoce — mais doce que azedo. Mas no final, nós aprendemos muito sobre Kelly e as decisões que ela precisou tomar, e o fato de ela ter perdido a filha e o marido e agora ela passar a eternidade com Yorkie. Há alguma coisa interessante em termos de escolha e a ideia de: Você iria para lá se outras pessoas que você ama não pudessem ir com você? Por um lado, é uma sensação boa, e então se você quiser se fazer estas perguntas, também pode.”

Black Mirror
Se apenas o fato de ter um final não-catastrófico já fez San Junipero ser visto com outros olhos, o episódio ganhou o destaque imediato também pela abordagem esperançosa. Ele foi aplaudido por romper com o Bury Your Gays[Enterre Seus Gays], um tropo da televisão que gerou polêmicas nos últimos meses após muitos casais LGBT em diversas obras ficcionais da TV terem sofrido finais trágicos – o que gerou uma interessante discussão a respeito de representatividade em Hollywood.

Inicialmente, Charlie Brooker havia idealizado a história com um casal heterossexual, mas por fim ele mudou para enriquecer a narrativa. Como isso impactou o resultado final?

“Charlie é muito esperto, porque isso fez a decisão da Kelly por querer tentar San Junipero ainda mais atraente. Se você passasse uma vida inteira com uma pessoa que você ama, isso é uma coisa. E se você teve uma família, é outra. Pode ser muito satisfatório ter todas as partes boas e as suas tragédias e todas essas coisas que você viveu como casal. Mas se há partes de você que estão fazendo falta porque você, no fim das contas, quer outra coisa, então este é o grande sacrifício que precisa ser feito. Você não precisa ser gay para ter estes desejos ou arrependimentos na vida. Mas eu pensei que seria bem legal explorar isso. Quando eu estava dirigindo, quase imediatamente nem pensei sobre o assunto. Eu acho que é muito sobre a interpretação de Gugu e Mackenzie, mas você nem precisava pensar na sexualidade delas. Eram apenas duas pessoas apaixonadas.”

O diretor também discutiu a possibilidade de uma sequência ou spin-off de “San Junipero”, mas é melhor ninguém ficar muito animado. Harris explicou que seria divertido, mas atentou o público ao fato de que – caso acontecesse – seria escrito por Charlie Brooker. “Ele vai mergulhar totalmente em Black Mirror e pode não querer fazer dois finais felizes!”

Via: AdoroCinema

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