“Desde criança eu já era diferente. Cresci no Amazonas. Costumava apanhar e ser chamado de mulherzinha e viado pelo mínimo que fazia, falava “certinho”, ouvia música clássica, gostava de arte, lia muito e já sabia da minha sexualidade”.

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Foto: Arquivo Pessoal

Sérgio foi abusado com sete anos, e ainda criança, não sabia o que estava acontecendo. Com a repressão da família, acabou se envolvendo emocionalmente com o próprio estuprador.

Aos 16 anos, ele não saía, nem tinha amigos. “Fiz amigos por correspondência, por um deles me apaixonei e através dele minha família teve a certeza: receberam uma carta, que era para mim, e nela ele se declarava”.

No dia em que a carta foi recebida por sua família, ele teve uma surpresa ao chegar em casa, todos já estavam sabendo. Seus pais pediram para que todos saíssem da casa, ficando apenas Sérgio com eles.

Como em um cenário de filme, ele pôde ver todos suas fantasias de criança caírem por terra. Em meio a gritos de interrogação da mãe, veio a agressão do pai. Sérgio foi espancado, torturado e todas as suas coisas foram queimadas.

“Minha mãe fez uma fogueira no quintal com todas as minhas coisas. Eu tinha um namorado, e meu pai conseguiu descobrir quem era ele. Nos ameaçou e eu pedi para que ele sumisse”.

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Sérgio conta das vezes que acordava com surra de cinto de couro, de quando apanhava antes de ir trabalhar, e como era difícil voltar pra casa e saber que sofreria mais. “Era obrigado a dar meu salário todo para casa, tinha que pagar para morar. Eu era espancado constantemente, até que um dia fui trabalhar e não voltei para casa”.

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Foto: Arquivo Pessoal

Ele foi morar com um irmão, que mesmo não aceitando sua orientação, o ajudou até que ele encontrasse um lugar para ficar. “Fiquei lá, sofri humilhações e fui morar com amigos da escola. Até que, no mesmo ano conheci um carioca e meses depois mudei para o Rio para viver com ele”.

Hoje Sérgio Mota mora em São Paulo, e com 40 anos de história, conta como sobreviveu a homofobia daqueles que mais esperava um lugar seguro. Sua vida é uma constatação do que muitos jovens sofrem cotidianamente. A homofobia mata, tira sonhos, e deixa marcas.

A série “O que a homofobia tirou de mim” traz um olhar para a realidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais no país da diversidade, no país que mais mata o que é diverso. Se você estiver sofrendo algum tipo de discriminação, denuncie, Disque 100.

Compartilhe conosco a sua história. Escreva para contato@nos2.co Porque a nossa vida é luta.

Ilustrações: Fernando Rezel

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