Em recente entrevista ao UOL, Eduardo Michels, de 62 anos, conta o pesadelo que tem vivido depois de denunciar, juntamente com o esposo, a agressão física e psicológica que sofreram de seus vizinhos de condomínio. O casal foi agredido por cerca de 20 homens no dia 21 de abril, no condomínio localizado na zona norte do Rio de Janeiro.

Enquanto parte do grupo imobilizava Eduardo, prendendo-o pelo braço e pescoço, Flávio, seu esposo foi derrubado ao chão e levou uma série de chutes, e eram humilhados ouvindo gritos de “aqui não é lugar de viado”. Flávio conta que foi até a delegacia, mas saiu de lá com um Boletim de Ocorrência que indicava ele como autor, em vez de vítima, mesmo estando com ferimentos e hematomas.

“Isso que aconteceu foi linchamento. Não foi uma briga só, foi uma coisa premeditada. Eles ainda gritavam: ‘aqui não é lugar de viado! Vai dar o c… em outro lugar’. Eles chutaram muito o abdômen e a região genital dele. Falava: ‘isso aqui você não vai mais usar’. Chutaram a cabeça dele também. Ele não morreu por milagre”, conta.

O casal conta que os condôminos costumavam fazer muitas festas, com música alta, e naquela manhã em especial, começaram a ouvir insultos dos vizinhos logo pela manhã. “Tem dois anos e meio que moro lá. Nesse tempo, sempre hostilizaram a gente. Desde que nós entramos, os moradores torceram o nariz. É um prédio pequeno, de três andares, e na verdade vivem umas três ou quatro famílias ali”.

Após um ano incomodado com o alto volume do som nas festas, que sempre acontecia por lá, Eduardo procurou a imobiliária e a empresa notificou o condomínio. “Depois disso, eles aumentaram o ódio e começaram a jogar lixo, urina e gasolina na nossa cara. Riscavam fósforo para bota fogo. Sempre que passavam por nós nos chamavam de ‘viado'”.

Ele conta que a polícia foi chamada tanto pelo casal, quanto pelos vizinhos, e todos foram levados para o 20º Distrito Policial da cidade. “Escoltaram a gente até a delegacia e fizeram um Boletim dizendo que nós que éramos os agressores. Temos 60 anos e nós teríamos agredido um bando de homens mais novos. Nós é que estamos todos machucados!”, conta indignado.

Eduardo conta ainda que Flavio e a irmã, de 73 anos, foram coagidos a assinar o documento, mesmo discordando de seu conteúdo, ou, do contrário, iriam presos, e que na hora de fazer o exame de corpo delito, o médico não quis nem que Flávio levantasse a camisa para mostrar seus hematomas.

Na última segunda-feira (24), Eduardo voltou a sua casa, mas foi impedido de sair dela. Ele acusa o síndico do local, segundo ele, um dos envolvidos no episódio de violência, de tentar mantê-lo em cárcere privado. Com a energia do apartamento desligada, o interfone cortado e até a fechadura da portaria trocada, ele tentou pedir socorro à cunhada e ao companheiro, que procuraram novamente a delegacia.

“Mas quando eles chegaram lá, os vizinhos já estavam confraternizando com o pessoal da PM. Eles ouviram a mesma ameaça sobre serem presos, dizendo que nós somos agressores. Qualquer louco vê que isso não tem sentido”.

“Uma pessoa normal não ia fazer uma tentativa de homicídio contra o vizinho. Por mais ódio que tivessem, desligar a luz e colocar em cárcere privado? Achei que eles fossem me matar. A sorte é que eu tinha um celular e comecei a chamar várias pessoas pelo Facebook. Eu sou ativista pelos Direitos Humanos e trabalho numa ONG há 37 anos. Comecei a mobilizar gente, até que conseguiram me soltar, quase 1h da manhã. O secretário dos Direitos Humanos soube e mandou uma patrulha aqui para me escoltar e eu poder sair”, relata Eduardo ao UOL.

O ativista ainda aponta estar sendo perseguido. “Para me intimidar, já passaram agora duas pessoas de farda, olhando para o prédio onde eu estou escondido. Eles sabem onde eu estou”.

“É uma dor de todos os lados”, diz, sobre a humilhação sofrida. “Eu não tenho mais medo de nada. O máximo que eles podem fazer é me matar. Mas, pelo menos, se eu morrer vão saber quem me matou. Se eu ficasse calado seria pior. Estudei Direitos Humanos a vida inteira e trabalho em uma ONG de Direitos Humanos. Vou ficar calado? Não posso, não!”

Eduardo conta ainda que a Defensoria Pública pediu uma medida cautelar, para que possa entrar no imóvel e retirar suas coisas, mas que ainda não obteve resposta. “Eu saí só com a roupa do corpo e os documentos. Estou sem acesso a nada. Agora a imobiliária comunicou que eu tenho uma ordem de despejo. Pago tudo em dia e eu só fui lá pedir a chave. Acredito que eles combinaram tudo”.

Sobre a denuncia de que Flávio e sua irmã foram forçados a assinar o boletim de ocorrência pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, a informação é de que as investigações estão em andamento para apurar os crimes de lesão corporal e ameaça, e todos os envolvidos no caso estão sendo ouvidos. Os agentes também procuram possíveis imagens e testemunhas que possam ajudar nas investigações.


Saiba como ajudar o casal Eduardo e Flávio aquiSua ajuda é de extrema importância. Precisamos mostrar que a comunidade LGBT não vai aceitar esse tipo de violência. Para que nós não sejamos os próximos, vamos fazer parar agora. #JustiçaPraEduardoeFlávio

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