Por Ricardo Puppe*

O cantor pernambucano Johnny Hooker foi uma das atrações do Palco Sunset deste domingo, 17, no Rock in Rio. Ele convidou Liniker, da banda Liniker e os Caramelows, e Almério para o show. Com Liniker, ele cantou “Flutua”, primeiro single do seu novo álbum, intitulado Coração.

Durante a música, os cantores se beijaram no palco, com a frase “amar sem temer” no telão ao fundo. O beijo acabou puxando um beijaço entre casais que estavam na plateia. E pelas redes sociais, uma verdadeira enxurrada de ódio começou a emergir, mostrando como é a homofobia no país que mais mata LGBTs no mundo.

Um beijo. O ato de expressar o amor não pode ser recebido com tanto ódio como vimos em portais que noticiaram a performance desses dois artistas. Nem nas ruas quando gays, lésbicas, travestis e transexuais andam.

Mas sabemos que não é o ato que incomoda, mas nossa existência. O fato de alguns não aceitarem nossa saída dos guetos, lugar onde por muitas décadas fomos empurrados, é justamente o motivo primordial que deve nos fazer resistir este momento de ódio e perseguição desenfreada. Não iremos mais nos esconder.

Mas Clodovil não fazia essas coisas

Avançar no legado daqueles outros LGBTs que, no passado, com muita arte, suor, luta, sangue e principalmente amor, construíram essa ponte para esse presente. Todos: Ney Matogrosso, Rogéria, Cazuza, Cássia Eller, João Trevisan, Luis Mott e até  o controverso Clodovil, coexistem dentro de nós. Porque o sentimento de resistência do direito a vida nos coloca no mesmo barco.

Cada um tentando à sua própria maneira sobreviver a tudo isso. Também existindo, também controversos. Porque temos histórias próprias com dores e vivências singulares, vivendo nessa sociedade que nos violenta a partir do momento que nos percebem.

E aqueles que enchem os comentários em cada matéria relacionada a nós, já faziam chacota com essas mesmas pessoas, que hoje, citam como trunfo para deslegitimar os novos personagens e rostos que aparecem, cada um à sua maneira.

Só lembram desses LGBTs para dizer como, onde, e quando devemos ser, mas na verdade preferiam que nem existíssemos. Dizem que gesticulamos demais, usamos roupas improprias, que nossa alegria é demasiada, que somos um perigo para a família, e principalmente para as crianças. Essa gente que, quando fomos pequenos um dia, nos pisavam e não pensavam em nenhum momento que… ÉRAMOS CRIANÇAS.

Um beijo na boca em público e, vejam só: uma IMORALIDADE. Mas não há nada demais quando um LGBT é violentado a cada 25 horas. O pretexto é na verdade para dizer que o que incomoda somos nós ali, ocupando o espaço e sendo quem somos.

Por isso se enganem, nem ouçam esses ruídos. O novo vem, e a história somos nós, com braços, pernas e beijos que fazemos. E quando se elogia um gay por ser discreto, na verdade se elogia a sua invisibilidade. Como diz o trecho da canção que Johhny Hooker cantou no momento que o beijo aconteceu: “Ninguém vai poder querer nos dizer como amar!”

AMEM SEM TEMER!


Ricardo Puppe é fotógrafo, ativista do movimento negro e LGBT. Cofundador do portal NÓS2 e do projeto Nosso Amor Existe.

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