A primeira casa de acolhimento para pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros da Bahia, a Casa A já está prestes a abrir as portas e receber com muito amor e afeto, de forma temporária vítimas de violência e em situação de rua, ou abandono em função da orientação sexual e identidade de gênero.

Ainda em reforma, o imóvel possui cerca de 300 m², localizado na Rua Primeiro Barreiro, em Monte Serrat, o local será inaugurado em fevereiro de 2018. Todos os gestores da Casa A integram a comunidade LGBT e carregam, na bagagem, histórias de preconceito e exclusão por conta da orientação sexual.

A ideia é que o espaço funcione como um lar de passagem, onde as vítimas poderão ficar de três a quatro meses. Todos terão assistência jurídica e acompanhamento de psicólogos e assistentes sociais. A iniciativa é do Instituto Adé Bahia.

Para ser acolhidas temporariamente, as pessoas, maiores de 18 anos, serão avaliadas segundo critérios de vulnerabilidade. Os acolhidos vão participar de cursos de informática, idiomas, empreendedorismo, orientação profissional, oficinas de música, grafite, dança e artes plásticas.

“Vai ser um espaço onde essas pessoas encontrarão carinho, apoio e as ferramentas necessárias para que possam andar com as próprias pernas. A depender da gravidade da situação, alguns poderão ficar mais de quatro meses. Faremos um trabalho de reinserção no mercado de trabalho e tentaremos um diálogo com os familiares”, explica o presidente da Casa A, Lucas Madureira.

O presidente do Grupo Gay da Bahia, Marcelo Cerqueira, acredita que ações práticas como a Casa A são importantes devido à grande quantidade de LGBTs nas ruas, expostos à violência, exploração sexual e ao crime. “Esse ambiente de acolhimento também deve ser relacional. Isso melhora a autoestima, a dignidade”, diz.

Já o coordenador das políticas para cidadania LGBT da cidade de Salvador, Vida Bruno, destaca o papel de iniciativas como esta. “As políticas para a cidadania LGBT vêm sendo desenvolvidas de maneira célere pela prefeitura, mas precisamos das organizações não governamentais”, disse. Segundo a Secretaria de Reparação (Semur), o Centro Municipal de Referência LGBT realiza cerca de 60 atendimentos/mês.

A intolerância começa em casa

Parece loucura, mas ainda em 2017 pessoas LGBT são expulsas de casa simplesmente por existirem e por expressarem serem quem são. Quando chegam às ruas, essa população sofre ainda mais violência e discriminação.

Em 2016, uma pesquisa realizada pelo projeto Mona Migs, aplicativo que auxilia LGBTs expulsos de casa a encontrarem um lar provisório, desenvolvido por alunos da Universidade Federal de Pernambuco, mostrou que 75% dos homossexuais têm medo de ser expulsos de casa antes de assumirem sua sexualidade, e 60% afirmam conhecer alguém que já ficou sem abrigo pro conta da sexualidade.

Só em São Paulo, a estatística mostra que em 2016, entre 5,3% a 8,9% do total da população em situação de rua pertencem à comunidade LGBT, como apontou o censo divulgado pela Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) da Prefeitura na primeira vez que o levantamento incluiu a orientação sexual.

Segundo o sacerdote católico Júlio Lancellotti, monsenhor e pároco da Igreja Miguel Arcanjo, na cidade de São Paulo e doutor Honoris Causa pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que atua com a população de rua, além da exclusão por parte da família, amigos, mercado de trabalho e Poder Público, a população LGBT ainda é rebaixada hierarquicamente nas ruas, chegando a ser subordinadas por outros sem-tetos. (Veja entrevista completa com o pároco aqui).

Nos Estados Unidos, 40% dos cerca de 500 mil jovens sem-teto se identificam como lésbicas, gays, bissexuais ou transgêneros, como indicou um estudo realizado pela ONU (Organização das Nações Unidas) em julho deste ano.


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