Por Murilo Melo*, com ilustração de Alfonso Casas Moreno.

Mais um sábado que você me liga. Exatamente como faz há uns sete ou oito meses. Você escolhe a camisa que valoriza os seus tríceps, confere o peitoral no espelho, coloca seu relógio imenso, usa um perfume amadeirado caro e vai, mais uma vez, desfilando no seu carro do ano pra um daqueles bares da Paulo Sexto com seus amigos da academia. Lá pelas duas e tanta da manhã, você finalmente pensa sem culpa no seu ex, boceja porque é tudo muito chato e porque o cara que você se interessa até que é bonito, mas não tem papo, e então você se dá conta que sua vida está prestes a ficar vazia – com mesa cheia, mas sem afeto; com pessoas que flertam, mas que não saem da superfície… Pronto: chegou a hora de me ligar.

Você não sabe ao certo por que corre atrás de mim, mas também não sabe ao certo por que não deveria correr. Você sabe que pode ter um homem mais inteligente do que eu, mais bonito, mais gostoso, com mais grana na conta, mais liberal e menos inseguro, que não leva as palavras “relacionamento” e “namoro” tão a sério. Mas, por alguma razão que eu desconheço, você prefere o gostoso garantido com cara de louco, o que conhece de cor suas manias insuportáveis, aquele que vai aos mesmos lugares de sempre, que ri das suas piadas idiotas, mesmo sendo as mesmas piadas idiotas de uns sete ou oito meses.

Aí você me liga, quando já não é noite, mas ainda não é dia. Me liga com a voz descompromissada e calminha de quem só quer conversar com um velho amigo. A voz de “você não sabe o quanto preciso de você”. A voz de “eu te pego em casa, eu pago tudo, eu te levo de volta”. E eu, pra ser sincero, não faço a menor ideia do que vejo em você. Eu sei que eu posso ter um homem mais inteligente, mais gostoso, mais comprometido, assim como eu já tive centenas de vezes. Mas, por alguma razão que eu desconheço, prefiro suas manias insuportáveis e suas piadas velhas. Você é um ogro, um infantil, um idiota, um chato. Mas você me lembra o mistério da vida. E talvez seja só por isso que eu continue insistindo em você: apesar de ter milhares de defeitos, você ainda me lembra o mistério da vida que o resto do mundo não tem.

Aí você vai me buscar em casa, mais uma vez, abalando no seu carro do ano, tentando me convencer a ser sua companhia no mesmo bar que você sempre vai, com os mesmos amigos babacas que você sempre anda: os sem cérebro, aqueles que só falam em carboidrato, proteína, treino e suplemento alimentar. A gente, passando de carro a orla inteira, com ruas vazias e luzes apagadas, sem saber ao certo o que faz ali, outro sábado, igualzinho há uns sete ou oito meses. E mais uma vez a gente se pergunta se vale a pena pertencer a mesas cheias e sem afetos, e acaba pulando o bar que nunca existiu e indo direto ao mesmo assunto de sete ou oito meses: o motel de sempre.

E aí uma bomba de sentimentos funciona como uma montanha russa dentro de mim. Mesmo quando é rápido, mesmo quando é devagar, mesmo quando é bom, mesmo quando é horrível, mesmo quando você está cansado, mesmo quando você está disposto, você sempre se comporta como uma criança egoísta, vira pro lado e vai dormir. Sem beijo, sem abraço, sem carinho. Ou volta pra sua vida ocupada. Com áudios em grupos de trabalho. Com viagens marcadas. Com casamentos de primos. Com festinhas de despedidas e projetos pra daqui a dez minutos ou dez anos. E em nada disso eu estou presente. E em nada disso você me inclui. E, ainda assim, eu sempre me apaixono por você. Todas as vezes que te vi, nesses últimos sete ou oito meses, num “oi” apressado ou no meio da multidão de homens parecidos com você ou num vulto ou numa foto nas redes sociais ou num supermercado ou atravessando a rua ou na cama de um motel, eu sempre me apaixonei por você. Eu sempre estive pronto pra suportar sua vida ocupada. Pra escutar uma piada nova. Pra andar de mãos dadas nesses bares de playboy que você frequenta. E você nunca deu importância pra isso, continuando na sua vidinha que sempre é interrompida pelo vazio das suas paqueras sem papo.

Você também sente uma pontada forte, rápida e descontrolada no coração depois que tem orgasmo com seu ex? Você também volta pra casa no banco de carona do carro dele sem dar uma palavra porque o nó na garganta te dá uma sensação de aperto, de sufocamento, que impede que isso seja possível?

Eu não vou entender nem daqui a mil anos. Eu não sei por que as coisas funcionam assim. Eu não sei por que a gente volta pra casa no fim do dia sentindo falta de alguém que está ao nosso lado, desejando alguém que deseja a gente e que os dois têm na lista de contatos. Eu só sei que eu vou voltar pra casa e tomar um banho bem gelado pra limpar tudo que sobra de você e esfregar a esponja bem forte na minha pele e chorar de novo e me odiar de novo e sentir a maior dor do mundo e me dizer, pela centésima vez, que eu já tinha decidido parar com isso.

Mas aí, daqui uns dias, exatamente como acontece há uns sete ou oito meses, você vai me ligar. Me escondendo como sempre, me querendo no escuro, passando na conveniência às pressas pra comprar camisinha, me levando pra um daqueles motéis de Pituaçu com mulheres de sobrancelhas pintadas a lápis e homens bombados com cheiro de suruba na recepção. E eu vou topar. Topo porque tenho pavor do tédio. Topo porque, assim como você, tenho pavor do vazio. Topo porque é assim que a gente faz com a nossa própria existência nesse mundão de gente tediosa e fútil: não entendemos porra nenhuma, mas continuamos insistindo.


*Murilo Melo é escritor, jornalista e roteirista. Autor do livro ‘Sentir é pesado demais pra eu carregar sozinho’.

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